A Importância do Comportamento Alimentar

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Comportamento alimentar
Comportamento alimentar

Neste artigo começaremos pelo princípio de tudo que é o papel activo, auto-crítico e responsável que cada um deve ter em relação à sua alimentação, ou seja começaremos por aquilo a que se chama o comportamento alimentar.

Os problemas da população mundial não são os mesmos em todos os pontos do planeta, pois dependem do tipo de mundo em que as pessoas vivem. O nosso mundo é o mundo ocidental, do progresso, da abundância, do sedentarismo, da sociedade de consumo, da substituição dos valores pelo materialismo, do marketing, onde o importante é vender, do ter em vez do ser. É este o chamado mundo civilizado e evoluído.

A maior parte das doenças que afligem a população actual do mundo ocidental reflectem esta atmosfera dominante: enquanto dois terços da população mundial têm doenças por carências materiais várias, que vão desde a fome às epidemias por falta de saneamento adequado, nós sofremos as consequências do excesso, excesso esse que não sabemos gerir e para o qual não estamos preparados biologicamente falando.

A maioria das doenças crónicas que afligem o mundo ocidental. têm uma base comportamental, o que significa que dependem dos nossos comportamentos, os quais por sua vez reflectem a filosofia de base do mundo em que vivemos. E é assim que um comportamento que inclui hábitos tóxicos que vão desde o alcoolismo, ao tabaco e à droga, o comportamento sexual, o comportamento ao volante, o comportamento sedentário, os comportamentos stressados e muitos outros que têm a ver com o chamado estilo de vida são determinantes no aparecimento das chamadas doenças da civilização, que são aquelas que mais afectam o mundo dito civilizado.

Os acidentes de automóvel, a cirrose hepática alcoolica, a SIDA e outras doenças sexualmente transmissíveis, as toxicodependências, a maioria dos cancros, das doenças cardiovasculares, dos casos de diabetes, e das obesidades têm uma base comportamental. Neste conjunto de doenças está a grande maioria das causas de morte e de doenças crónicas que afligem a sociedade ocidental.

Pelo contrário, um estilo de vida saudável é, juntamente com o património genético de cada um e com o ambiente que o rodeia, um comportamento importantíssimo na promoção da saúde individual e colectiva. Enquanto que sobre a herança genética, que varia de pessoa para pessoa, pouco podemos fazer, pelo contrário podemos fazer TUDO (ou quase) em relação aos nossos comportamentos. Evidentemente que aqueles que têm uma herança genética mais desfavorável estão mais dependentes dos seus comportamentos para manter a sua saúde do que aqueles que foram bafejados pela sorte dum património genético favorável.

Mas, quer para uns quer para outros, os comportamentos saudáveis são sempre importantes, embora mais necessários para os primeiros, o que não quer dizer que estes desistam de alcançar o objectivo supremo de preservar a saúde que é o mais precioso dos bens.

A este propósito costumamos dar o exemplo de dois alunos, um com muita memória e capacidade intelectual e outro com estes predicados em menor grau. Este último terá de estudar mais horas para ter aproveitamento escolar ao passo que talvez o primeiro fixe e compreenda tudo à primeira. Mas não deverá ser por isso que o menos dotado vai desistir de ter aproveitamento escolar. E a vida acabará por compensar todos. Numas coisas teremos mais facilidades mas noutras vai-nos ser pedido maior esforço.

O mesmo sucede com os comportamentos de risco em geral e com o comportamento alimentar em particular. Vejamos outro exemplo simples: por diversas razões que a seu tempo explicaremos, há pessoas que por muito poucos cuidados alimentares que tenham pouco engordam, ao passo que outras têm maior tendência para engordar. Mas não é por isso que estas ficarão inevitavelmente gordas, desde que tenham um comportamento alimentar correcto.

Dentro dos vários comportamentos, o comportamento alimentar é dos mais importantes no que se refere à preservação da saúde e à origem das doenças. Num artigo próximo indicaremos as várias doenças que estão relacionadas com comportamentos alimentares. Não há estilo de vida saudável sem comportamento alimentar saudável.

Importa desde já dizer que o problema não são as excepções nem os dias de festa, mas sim o dia a dia. Costumamos dizer aos pacientes que nos procuram que o ano tem 365 dias. Mesmo que haja festas em 10% dos dias do ano, o que dá 36 dias de festa o que é muito para a maioria da pessoas, não é isso que conta. O que importa são os restantes 90%, ou seja os outros 329 dias.

Porém só se podem esperar comportamentos adequados quando cada um sabe o que deve e não deve fazer. Este é um princípio básico de educação que se aplica a todos, a começar pelos nossos filhos. Assim, a educação é o primeiro passo no sentido dos comportamentos adequados, seja qual for o aspecto da vida em análise. Portanto, não se podem esperar comportamentos alimentares adequados duma população que não recebeu educação alimentar. Por muito cultas que as pessoas sejam noutras matérias e profissões, a esmagadora maioria da população leiga em assuntos de saúde, mesmo aquela de extractos sociais e económicos mais evoluídos e que se preocupa com ter uma vida saudável, nunca teve acesso a uma educação alimentar. É precisamente isso que procuraremos fazer neste conjunto de artigos: dar educação alimentar.

Para obter bons comportamentos alimentares são necessárias duas etapas prévias:

primeiro EDUCAR, depois MOTIVAR. Uma pessoa pode saber o que deve fazer depois de educada, mas não o fazer por não estar suficientemente motivada. Motivar é mais difícil que educar porque vai ao psiquismo de cada um.

No fundo, motivar tem a ver com questões como educação do prazer, criação de prazeres alternativos, definição de objectivos de vida, etc. Motivar e educar são coisas diferentes. Frequentemente a motivação para um bom comportamento alimentar necessita da ajuda de psicólogos com experiência neste campo. O conjunto de artigos que agora iniciamos tem a ver com educação alimentar, mas da educação faz parte explicar as vantagens duma boa alimentação e os riscos duma alimentação errada e esse conhecimento já será motivador para boa parte das pessoas.

Dizia um célebre professor de Medicina, o Prof. Fernando Pádua “que a saúde é demasiado importante para estar só nas mãos dos médicos“. Queria ele com isto dizer que cada um de nós é o primeiro responsável pela sua própria saúde. O médico e os outros técnicos de saúde servem para educar, para esclarecer nos casos duvidosos e para corrigir o que está mal.

São e serão sempre necessários, pois a educação de todos não dispensa que haja profissionais especializados nas diferentes áreas. Mas os médicos e outros profissionais de saúde não dispensam a colaboração dos principais interessados que são cada um de nós para mudar o seu comportamento alimentar.

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