Proibido o Glúten!

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Uma frase como esta vinda “Proibido o Glúten!” do seu médico poderia não parecer muito ameaçadora. Mas depois de conhecer bem o que fica proibido, então a situação fica complicada.

E é esta frase que todos os doentes celíacos ouvem logo que a doença lhes é diagnosticada. Conforme explicou à Mulher Portuguesa Filomena Oliveira, presidente da Associação de Celíacos e directora da única empresa portuguesa que importa exclusivamente produtos naturalmente sem glúten, a Gludiete: ‘O problema da doença celíaca é muito simples. Os celíacos são pessoas que, pelo facto de terem uma anomalia genética, são intolerantes ao glúten. Esta é uma proteína que existe em todos os cereais à excepção do milho e do arroz. Se fizerem uma alimentação livre de glúten, não têm problema absolutamente algum.’

No entanto, para o celíaco o problema coloca-se mesmo na alimentação. É que o glúten está presente em quase tudo o que é fabricado com cereais. Olhe à sua volte e aponte em menos de um minuto aquilo, das coisas que habitualmente consome, que não são produzidas assim. Difícil, não é?

Os alimentos fornecem as substâncias que o corpo necessita para sobreviver mas apenas as suas propriedades são utilizadas pelo organismo depois de devidamente digeridos pelo tubo digestivo. Na doença celíaca, o glúten, quando em contacto com a mucosa intestinal provoca reacções de rejeição mais ou menos violentas que podem provocar lesões e perturbam o normal funcionamento do organismo, provocado pela intolerância alimentar.

‘O grão de trigo tem, como a cevada, a aveia e o centeio, uma estrutura complexa em cuja composição entram muitas substâncias das quais nem todas são agressivas para o intestino do celíaco. Há que considerar o amido (inocente neste processo), e as proteínas que se dissolvem na água (albuminas e globulinas) e as que não o fazem. É ao conjunto das proteínas insolúveis que se chama genericamente glúten, nociva para os celíacos’ conforme a explicação que encontrámos na página da Associação de Doentes Celíacos.

E Filomena Oliveira acrescenta: ‘neste momento, já se podem separar os dois componentes, mas as tecnologias de que dispomos ainda não permitem que essa separação seja completa. E essa quantidade mínima pode ser letal para o celíaco. Por isso, na Gludiete apenas temos produtos naturalmente isentos de glúten. É um pouco como fazer pão sem trigo, por isso optamos por farinha de milho, de batata, de arroz, etc.. Anos atrás, o sabor dos alimentos destinados aos celíacos razava o intragável, mas hoje já temos todas as opções que uma pessoa com alimentação normal.’ E este facto foi constatado por nós, provando algumas das especialidades, em que o sabor não se distingue das feitas com farinha de trigo.

Um celíaco, quando se depara com uma alimentação da qual não foi excluído o glúten não irá conseguir aproveitar normalmente os alimentos. Basta retirar o glúten para tudo voltar ao normal. No entanto essa dieta tem de ser levada até ao fim da vida, porque não existe qualquer medicamento que faça o mesmo efeito.

O aparecimento da doença costuma ocorrer alguns meses após a introdução das farinhas na alimentação sobre a forma de papas, bolos, bolachas e pão. A criança começa a perder o apetite, deixa de aumentar de peso e torna-se irritável. As dejecções são mais frequentes, moles e volumosas e o abdómen torna-se mais distendido, podendo acabar em estados de má-nutrição graves. As manifestações da doença costumam ser mais intensas durante os primeiros anos de vida e tendem depois a diminuir de intensidade.

Nos jovens ou adultos, os sintomas passam também por anemia, baixa no rendimento escolar, paragem do crescimento, ausência ou perturbações da menstruação e baixa de fertilidade ou mesmo esterilidade.

E, como já referimos, é na escolha de alimentação que o celíaco tem mais problemas. Filomena Oliveira encontrou essas soluções no estrangeiro e, como celíaca, considerou que também os outros doentes teriam o direito a uma alimentação melhor. Daí foi um passo até à criação da Gludiete, apesar de se ter defrontado com vários problemas.

‘Estes produtos são mais caros, porque é necessário recorrer a alternativas e porque implicam mais misturas. O pão normal é apenas água, farinha e fermento. O pão para os celíacos tem de ter uma mistura para substituir a farinha de trigo e gomas para servir de aglutinante.’ Explica. ‘E depois temos a questão do transporte para todo o país e ilhas. Tentamos vender com as margens mais baixas possíveis para não penalizar ainda mais o celíaco, mas os problemas colocam-se ao nível dos revendedores que não aceitam lucros tão baixos.

A Gludiete tem mais de cem produtos, do pão aos bolos, bolachas, biscoitos com e sem recheio, massas, lasanhas, pizzas, aperitivos. Não há nada que não tenhamos. As encomendas são feitas por telefone, fax ou carta ou através da linha telefónica para encomendas durante 24 horas, ligada a uma linha de gravação que é verificada a cada duas horas. O pedido é depois processado e segue para a morada das pessoas via correio ou transportadora.’

O uso dos cereais por parte dos povos provocou o aparecimento da doença celíaca. No séc. II Aretaeus da Capadócia descreveu doentes com um determinado tipo de diarreia usando a palavra “Koiliakos” (aqueles que sofrem do intestino) e em 1888 Samuel Gee, um médico de Londres, observou uma ‘afecção celíaca’ em crianças e adultos, aproveitando também o termo grego.

Durante a 2ª Guerra Mundial o racionamento reduziu o fornecimento de pão à população holandesa e o professor Dicke verificou que as crianças com ‘afecção celíaca’ melhoravam quando não comiam o pão.

Em Portugal são várias centenas de pessoas que sofrem do problema e que esperam que o Governo e a classe médica tome alguma posição sobre o assunto.

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