A excisão feminina

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Excisão feminina
Excisão feminina

Em todo o mundo ocorrem a cada minuto milhares de atentados contra a vida, a integridade e a saúde humana. Alguns são devidos a conflitos, outros a ignorância, mas alguns são feitos em nome da tradição ou religião. É o caso da excisão feminina.

Em nome da religião têm sido praticados crimes, carnificinas e esmagadas civilizações. Em nome da religião milhares de mulheres têm sido privadas de uma das mais importantes partes da sua fisionomia feminina: o clitóris.

Em determinadas culturas, a mulher que não se submeter à operação é para sempre olhada como uma criança, impura, impedida de casar. Ninguém come a comida que cozinhar e a roupa que lavar será sempre lavada outra vez por outra pessoa. Esta mulher não pode assistir a cerimónias solenes nem participar das festas. Será sempre uma proscrita. Tudo porque está, usando um eufemismo, como nasceu. A operação a que não se submeteu consiste em remover o clitóris. Só assim será mulher. Mas perde toda a sensibilidade na área genital, excepto para sentir dores com a penetração e a dar à luz.

Falamos da excisão feminina, ou mutilação dos órgãos sexuais da mulher, praticada em muitos pontos do mundo e por diversas religiões, com vista a tornar a mulher mais ‘pura’ removendo-lhe o centro do prazer. É normalmente levada a cabo em meninas antes da puberdade, entre famílias aborígenes, muçulmanas e cristãs como tradição social.

A operação é ocasionalmente efectuada em crianças de países africanos, indonésios e asiáticos e é vista por alguns como uma obrigação religiosa ou mesmo como uma operação por razões de saúde. Do outro lado estão os que estão contra este procedimento por ser uma cruel mutilação de uma jovem apenas para reduzir a sua resposta sexual depois da puberdade.

Vários países proibiram já esta prática com vista a impedir famílias emigrantes de as realizarem, nomeadamente na Inglaterra, Canada, França, Suíça, Suécia e Estados Unidos, mas continua a ser levada a cabo em muitos países. As idades em que as crianças são submetidas à operação variam consoante o tipo de excisão e o país ou aldeia em que é praticada podendo ir dos três anos de idade até aos 11 a 12, mas tem lugar sempre antes de atingirem a puberdade.

Existem três formas diferentes de excisão, sendo que nos países árabes se efectua a remoção apenas da parte superior do clitóris, no que se chama ‘Sunna’, palavra que significa tradição, ao passo que em África se pratica a clitoridectomia, ou remoção total do clitóris e por vezes mesmo a remoção dos pequenos lábios.

Segue-se a infibulação, também referida como a circuncisão faraónica, a forma mais extrema destas operações, que consiste na remoção de todo o clitóris, dos lábios adjacentes e a junção da vagina e vulva com agulha e linha forte. É apenas deixada uma pequena abertura para permitir a passagem da urina e do fluído menstrual. Uma mulher submetida à infibulação tem de ser ‘descosida’ de cada vez que pratica sexo, e é ‘fechada’ de novo depois, de forma a garantir a sua fidelidade permanente ao marido.

Centenas de mulheres continuam a morrer em virtude desta ‘operação’. Infecções, sangramentos até à morte, perda de vitalidade, falta de higiene dos instrumentos, tudo leva a que a excisão seja um perigo para a saúde. Em alguns países, o clitóris é cortado com uma simples pedra afiada e para evitar o sangramento são colocadas sobre a ferida cinzas ainda quentes ou borras de café.

Todos os objectos afiados podem ser usados para a operação, desde lâminas de barbear, facas de cozinha, tesouras e pedaços de vidro. Estes ‘instrumentos’ são frequentemente usados em diferentes raparigas no mesmo dia e raramente são limpos e muito menos esterilizados, causando a transmissão de vários vírus como o HIV e outras infecções na área genital.

Quando as coisas correm mal, os parentes da criança não recorrem aos médicos com receio de serem punidos, nos casos onde a lei não permite a excisão, ou porque não atribuem a doença directamente à remoção do clitóris mas sim a maus espíritos que atacam a rapariga. Para além da dor física imediata desta ‘operação’, a excisão tem efeitos a longo prazo nos níveis fisiológicos, psicológicos e sexuais, isto no caso da criança sobreviver, uma vez que após a ‘operação’ enfrenta estados de choque, hemorragias ou septicemia.

Para evitar este tipo de problemas sem ir contra este acto enraizado na cultura dos povos, o governo egípcio criou leis que impedem que a ‘operação’ seja levada a cabo por outros que não médicos e enfermeiros em hospitais. Embora isto possa parecer mais higiénico e uma forma mais humana de lidar com a situação, por outro lado permite que seja retirada uma maior porção de tecido, uma vez que a criança anestesiada não se debate.

As complicações a longo prazo incluem frigidez sexual, malformações genitais, atraso na puberdade e no aparecimento do primeiro período menstrual (menarca) complicações crónicas na pélvis e uma lista enorme de complicações obstetricas, porque o feto estará mais exposto a infecções assim como corre o risco de ficar com a cabeça esmagada no danificado canal de parto, no caso das mulheres que foram vítimas de infibulação, em que é necessário recorrer a outra operação para serem de novo ‘abertas’ de forma a permitir a passagem da criança.

A tradição é sempre mais forte do que qualquer tentativa de mudança e muitas mulheres não são informadas acerca dos perigos da excisão, tomando as morte ou doenças como algo que nada tem a ver com a operação a que forma submetidas. As razões apresentadas para a excisão variam entre o facto da mulher que mantém o clítoris ser considerada impura e não apta para o casamento até à crença que o facto de um pénis tocar no clitóris ser fatal para o homem.

Outras apontam para que este seja um tratamento contra a feitiçaria, a segurança sobre a virgindade, honra de família ou simplesmente para as afastar do sexo, tornado-as simples objectos de prazer para o marido. E embora pensemos que esta prática é apenas resultado da ignorância de alguns povos, é sempre bom recordar que até algumas décadas atrás, nos países ditos civilizados, o clitóris era uma parte muito perigosa da anatomia feminina.

Quem pode esquecer as declarações de Freud que defendia no seu livro ‘Sexualidade e Psicologia do Amor’ que a ‘eliminação da sexualidade clítorial é fundamental para o desenvolvimento da feminilidade’. Em Dezembro de 1993 as Nações Unidas adoptaram a ‘Declaração sobre a Violência contra a Mulher’, um reconhecimento implícito por parte da comunidade internacional da existência de um fenómeno universal de violência de género (pois afecta apenas as mulheres), no qual se incluem as mutilações genitais femininas. Um pequeno passo para um tão grande problema que ameaça continuar por mais um milénio.

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