Sofia Marrecas Ferreira, escritora da vida

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Sofia Marrecas Ferreira
Sofia Marrecas Ferreira

‘Mulheres de Sombra’ e ‘História de Família’ são os dois primeiros romances de Sofia Marrecas Ferreira, mas a curta obra já está inscrita no âmbito da melhor literatura portuguesa actual.

Falar de Portugal, de Lisboa e do Alentejo que adora, é o tema favorito de Sofia Marrecas e são estes os cenários que escolhe para as suas obras. ‘Nos meus livros haverá sempre Lisboa e o Alentejo.

Sofia Marrecas Ferreira

Gosto muito de Lisboa e adoro visitar e reconstituir os romances do Eça. Lisboa é uma cidade fantástica porque tem um valor humano muito forte. São estas fachadas, esta luz, tem uma alma e uma enorme força.

E o Alentejo tem a mesma coisa, tem uma força telúrica que no norte de Portugal já não sinto. É sangue, é um corpo. Não há nada para enfeitar, apenas a planície, tornando o ser humano e a terra num único corpo. E pretendo sempre mostrar isso nos meus livros.’

O primeiro romance ‘Mulheres de Sombra’ foi editado em 1995, depois de ter recebido o incentivo do professor Helder Macedo para escrever, quando fazia a sua tese no Cambridge School, a quem dedicou o romance.

‘Mulheres de Sombra’ retratavam uma solidão muito forte e a sensação de ter nascido para outro destino daquele que tinham previsto. Passava-se numa aldeia alentejana, a Aldeia das Loucas, de mulheres extremamente pobres, num país frio e com neve que tinham de inventar uma rotina e razões para viver e existir.’

Antes de entrar para o mundo da literatura, cursou românicas na Faculdade de Letras de Lisboa até 1981, data em que casou e em que iniciou a sua carreira de viagens para seguir o seu marido a S. Paulo, Paris e Londres.

Sofia Marrecas
Sofia Marrecas

‘Viajo porque tenho de viajar, até detesto viajar de avião. Gosto de viajar, mas faço-o para acompanhar o meu marido. Tenho uma maior perspectiva do mundo, das coisas e das pessoas, mas cada vez que cá estou sinto um enorme saudosismo e imobilismo nos portugueses, que gostam imenso de se queixar, o que até compreendo, porque há coisas que são inaceitáveis em 2000, como a falta de equipamento nos hospitais.

Não sei o que os sucessivos governos estão a fazer. Por outro lado, há muita subserviência também por parte das pessoas e quem tem o poder é que deve resolver as coisas.’

A linguagem que utiliza flui como um pensamento, sem pausas para discursos. ‘Escrevo assim há muito tempo, acho que o pensamento e a fala são duas coisas que estão sempre juntas. Se faço uma pausa antes de falar, já fiz uma pausa demasiado longa.’

E para os seus livros, a realidade é outro factor que não pode dispensar, apesar de criar sempre uma certa magia. ‘Quando escrevemos temos de lidar com o real e não esperar que as coisas nos caiam do céu. Por natureza sou muito optimista e positiva e o que me interessa é o ser humano. Interesso-me muito pelas pessoas e pelo espaço em que vivem. Para mim, o homem nunca é desligado do seu espaço físico e por isso é que acho que Lisboa é uma cidade fabulosa.’

E a fonte de inspiração também podem ser outros livros que gosta de ler. ‘Gosto de livros em que me reconheço mas que me tragam alguma solução, que me tragam algo mais, porque ser igual a mim própria não me serve de nada. Se nascemos temos de evoluir. O conhecimento é uma coisa muito importante e acho que temos sempre de aprender mais. Há muita coisa para ver e para aprender e isso é que é importante na vida.’

 

Inevitável é falar da mulher e do seu papel na sociedade portuguesa e a resposta chega pronta: ‘Na vida é tudo uma questão de equilíbrio, há que ter irreverência e vontade de mudar as coisas, mas há que ter também disciplina e cuidado. Há várias camadas de mulheres, a que trabalha e cuida dos filhos, a que pode entregar os filho a uma avó, etc.

De uma maneira geral acho que são mulheres muito ternurentas e que têm capacidade de fazer tanta coisa ao mesmo tempo. A realidade da mulher portuguesa passa por uma existência muito terra-a-terra, talvez menos hoje, porque trabalha, mas depois chega a casa e tem de tratar dos filhos, do jantar, do marido, da roupa, etc. e o homem não faz nada ou apenas ajuda um pouco porque não é uma coisa que esteja na sua cultura e a mulher tem de se dividir em muitas para dar resposta a tudo.’

São essas divisões que Sofia Marrecas Ferreira capta, com êxito, nos seus romances. Mulheres de um Portugal que está quase a desaparecer, mulheres que vivem nos dias actuais e acima de tudo, personagens que não precisam de muito para se tornarem reais aos olhos do leitor.

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