Crónica: O que os nomes escondem

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Cronistas da MulherPortuguesa
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O que está por detrás de um nome? Será que por colocarmos Luís Figo o bebé vai ser um grande craque do futebol? Ou se colocarmos o nome de Amália a pessoa será uma grande fadista?

O que os nomes escondem

No outro dia, enquanto dava o meu passeio virtual por alguns órgãos de informação da Internet, vi-me confrontada com uma notícia no Diário Digital, referindo-se ao facto de ter sido dado um parecer positivo à atribuição de nomes a bebés, fazendo estes alusão a jogadores de futebol.

E, espantem-se, os nomes eram Luís Figo e Hugo Leal! Mas o espanto maior, na minha óptica, é que estes nomes são permitidos apenas quando utilizados em conjunto.

O que significa que se achar que o seu menino fica muito bem como o nome Joaquim Figo (pessoalmente não gosto!) ou Humberto Leal (ligeiramente melhor, mas ainda assim uma má escolha!) não vai ter qualquer oportunidade de, mais tarde, gritar “Figuinho, vem comer a sopa!” ou “Beto Leal onde está a comando da televisão?”.

Segundo a mesma fonte, fiquei a saber que nomes como Chico, Quim, Toni ou Gabi podem não ser meros diminutivos, como o vulgar cidadão julga. Na verdade, há mesmo pessoas com estes nomes!

Perdoem-se mas, e embora fique sempre bem esta proximidade que os nomes, por si só, oferecem, imaginem o que é, largos anos depois, a pessoa vir a exercer funções administrativas numa empresa importante ou, quem sabe, candidatar-se à Presidência da República: o Director Toni (gargalhada geral dos subalternos!!) ou o Chico, que se candidata às eleições (no mínimo, vão julgar que é o Chico ali da tasca da esquina!). Que se seja imaginativo, mas que não se caia no ridículo!

A carga de informalidade destes géneros de nomes é exagerada, e quase ridícula, isto se pensarmos num futuro que exija funções de chefia ou autoridade. Eu, pelo menos, se tivesse uma chefe chamada Gabi não me continha com umas risadas!

Este meninos, o Luís Figo e o Hugo Leal, versão 2, obrigam a uma reflexão sobre a importância que os nomes têm para a vida quotidiana! Lógico que não é por se ter um nome de jogador de futebol que se julga que, um dia, o ‘puto’ será um craque como o original. Bem, e se assim fosse, Portugal estaria repleto de Santas Marias (não sei é se seriam todas virgens): Maria da Conceição, Maria das Dores, Maria de Fátima, Maria do Anjos, Maria da Piedade, etc..

Os tempos nessa altura eram outros. Predominavam os ‘Manuéis’, os ‘Antónios’, os ‘Joaquins’, as ‘Marias’, e por aí adiante. Hoje, proliferam os ‘Diogos’, os ‘Bernardos, o João qualquer coisa, que fica sempre bem, e a Maria não sei das quantas, porque da alusão à igreja passámos para um conotação in do nome Maria. Diz-se mesmo que o nome Zé Maria (é só o nome, e não o de Barrancos) é um must nos círculos sociais!

Por vezes, somos mesmo obrigados a rirmo-nos com determinados nomes! Junções de nomes que não têm a mínima lógica, fruto do mais puro mau gosto, apenas com um único objectivo: ser original! Repare nos nomes que o Portugal Diário apresentou nessa notícia: Daiana (a princesa Diana?), Dóli (a ovelha?), Jesus Cristo (o próprio?), Sandokan (dos desenhos animados para a realidade?), Mona Lisa (dos antepassados da pintura para a era dos computadores?), Nívea (o Creme?).

Estes e outros nomes são verdadeiras aberrações, todos eles rejeitados pelas conservatórias, e, desculpem-me a franqueza, mas eu não perdoaria a alguém que me colocasse um nomes destes. Até porque, julgo haver algo de errado com a onomástica do nosso país.

Antigamente, as pessoas tinham nomes normais (nem todos, mas enfim!), mas agora é este desfilar de horrores que se pode constatar. O mesmo se passa com os cães, antes com aqueles nomes característicos, e hoje com nomes de pessoas, tipo Alexandre ou Joana! (isto é verdade, eu já constatei!)

Esta tamanho furacão de imaginação leva a que qualquer dia tenhamos nomes de pessoas com marcas de electrodomésticos, perfumes, ou vestuário. Imaginemos uma Singer, outra Chanel ou uma Salsa? Que grande trio de amigas teríamos aqui!

Ou então porque não retornar aos tempos passados e colocar à nossa filha o nome de Urraca ou de Vespúcio? Sempre é mais cultural do que Sandokan ou Nívea! Então e se quisermos colocar o nome de Fidel? O ‘puto’ já nasce com a foice e o martelo no peito, e vai ter que ser um fervoroso comunista: as primeiras palavras, ‘hasta la vitoria siempre’.

O mesmo acontece se o pai achar conveniente chamá-lo de António Salazar. Não há cá conversas de utopias, democracia, proletariado ou greves. Primeiro o puto dirá a palavra Deus, depois pátria e, por fim, família. Isto é de loucos! Bem, mas também já alguém disse, um dia, que todos nós temos um pouco de loucos!

Isto tudo para vos explicar, caros leitores, que não é o nome que vai mudar a sua personalidade, posição social, inteligência, comportamento, ou estilo de vida da pessoa.

O nome está lá, mas é com o caminhar dos anos que se constrói a personalidade da pessoa, os seus defeitos e virtudes. Um nome é apenas um nome! Nada mais do que isso! Umas palavras que apenas adquirem importância na personalidade onomástica de cada um, pois na vida quotidiana não servem para nada.

Mas, se continuarem com tamanhas ideias imaginativas é natural que a pessoa possa vir ser motivo de chacota, gozo e venha a ter problemas mais tarde (ou acham que foi fácil ter como apelido Amante?

Tudo bem que hoje até tem uma certa piada, mas houve alturas em me apeteceu esganar professores, funcionários, e mais umas quantas pessoas!)

O Figo, é o Figo; o Hugo Leal, é o Hugo Leal; o Fidel, o Fidel; e a Mona Lisa, a Mona Lisa. Ninguém vai ser igual a eles! Deviam dar largas à imaginação, mas talvez devessem pensar um pouco mais no futuro dessas crianças, e não limitarem-se a colocar o primeiro nome que vos vem à cabeça, somente porque é diferente.

É apenas um nome, mas a seguir a esse nome vem também uma vida! E, se o que pretendem é dar o nome de alguém famoso à criança, porque não dar o nome de Cicciolina a uma menina?

Não sugerem esse nome porquê? Pois, bem me pareceu! É que ainda que o respeito não se faça por um nome, no caso de Cicciolina talvez se fizesse!

Então talvez agora percebam o que quero dizer com essa história de nomes! É só um nome mas, enfim, há que zelar pela identidade onomástica de cada um! Sejam sensatos!

Cronista da Mulher Portuguesa: Ana Amante

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