Ana Gomes, uma paixão chamada Timor

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Ana Gomes, uma paixão chamada Timor
Ana Gomes, uma paixão chamada Timor

Dois dias antes de se completarem 8 anos sobre o Massacre de Santa Cruz, em Díli, Ana Gomes, a diplomata portuguesa em Jacarta, fala à Mulher Portuguesa..

A poucos dias de mais um aniversário do Massacre de Santa Cruz, em 12 de Novembro de 1991, a Mulher Portuguesa convidou para a conversa, Ana Gomes.

Ana Gomes

De passagem por Lisboa, para umas curtas férias, antes do regresso à Indonésia, a chefe da Secção de Interesses de Portugal em Jacarta confessa que gostaria de, um dia, ser Embaixadora de Portugal em Timor. Mas, claro, “o futuro ao governo pertence” e, por isso mesmo, fica-se pela luta pela Causa, em Jacarta, em Lisboa, ou em qualquer outra parte do mundo por onde passe.

Dois meses e meio depois do referendo de 30 de Agosto, Ana Gomes considera que a situação em Timor melhora todos os dias, mas admite ainda um mar de preocupações. Apesar disso, a diplomata portuguesa desvaloriza eventuais divisões entre a Resistência.

E acredita que vai ser possível um relacionamento “normal” entre Timor Loro Sae e a Indonésia, apesar das muitas feridas por sarar. Prova disso, diz, é a anunciada visita de Xanana Gusmão a Jacarta.

Há menos de um ano em Jacarta, Ana Gomes recorda os primeiros tempos na Indonésia como “muito cheios”… Habibie acabara de anunciar que permitia a consulta aos timorenses; e conta que, no maior país muçulmano do mundo, o facto de ser mulher só lhe trouxe vantagens.

Em 30 de Janeiro do ano que vem, Ana Gomes completa um ano à frente da Secção de Interesses de Portugal, na companhia do diplomata Afonso Malheiro. Em poucos meses, Ana Gomes tornou-se, para a opinião pública portuguesa, uma “diplomata sem papas na língua” que, sem perder a diplomacia, se mostrou capaz de defender a causa de Timor, com um incomparável “amor à camisola”. Talvez por isso, dificilmente encontraremos um português que não a conheça e admire.

À distância de 10 meses, tantos os que leva de vida na Indonésia, Ana Gomes recorda os primeiros tempos como “muito cheios”. “Não chegávamos para as encomendas! Chegámos três dias depois do anúncio feito pelo Presidente Habibie de que dava aos timorenses a opção da escolha para o seu futuro. E isso foi uma autêntica bomba em Jacarta e em todo o lado!.

E, portanto, mal chegámos, tínhamos sobre nós, os media indonésios e os estrangeiros representados em Jacarta; os nossos colegas diplomatas dos outros países, a quererem saber se havia alguma ligação com a nossa chegada, se isto estava combinado!”.

Mal houve tempo para a instalação: havia pouco mobiliário, faltavam computadores, era preciso fazer os primeiros contactos… Foi tudo “muito cheio”!

Além disso, foi preciso também adaptar-se a uma nova forma de estar na sociedade, uma nova cultura: a do maior país muçulmano do Mundo. Uma adaptação “muito gradual”, que se fez aos poucos… mas não se pense que estamos perante um caso extremo de fundamentalismo islâmico.

Ao contrário, apesar de 90 por cento dos indonésios serem, de facto, muçulmanos, Ana explica que “é um tipo de Islão muito “soft”, muito moderado… que navegou muitas milhas para chegar da Península Arábica até ali”, o que lhe causou “naturais diferenças… estamos a falar de um arquipélago enorme, que se estende por mais de três mil quilómetros e que tem ilhas, populações, etnias muito diversas”.

Exemplo desta tolerância é, precisamente, a forma como a Mulher e o seu papel na sociedade são encarados. “Tradicionalmente, a Mulher não é tão segregada” como acontece no Islão em estado “puro”.

E esta é uma questão que se pôs muito recentemente, devido à candidatura de Megawati Sukarnoputri às eleições presidenciais. “Houve algumas correntes mais conservadoras… eu não diria fundamentalistas, mas conservadoras… que tentaram fazer valer o ponto de vista de que a candidatura da senhora Megawati era inaceitável por ela ser Mulher.

E imediatamente outras correntes islâmicas dominantes, tão dominantes que ela acabou por ter a maioria dos votos nas eleições de 7 de Junho… vieram dizer que essa interpretação não fazia sentido; vieram lembrar que há outros países muçulmanos em que há mulheres presidentes e primeiros-ministros. É o caso do Bangladesh e do Paquistão”.

Semelhante tolerância tem sentido a diplomata portuguesa: “se há algum efeito por ser Mulher, é até pela positiva. Numa sociedade em que a instituição militar, de cultura masculina, “machista”, é predominante, talvez por eu ser Mulher, me tenha sido permitido dizer algumas coisas, que, possivelmente, a um homem não seriam tão facilmente toleradas pelos militares”.

Ana Gomes tornou-se, de alguma forma, reconhecida pelos portugueses, por um estilo de fazer diplomacia a que, possivelmente, não estariam habituados. “Houve algumas vezes em que tive que expressar pontos de vista muito críticos em relação aos militares, por comportamentos relativos a Timor”.

Posições que, “se tivesse sido um diplomata homem, talvez tivesse havido reações muito negativas”. Ana dá uma ligeira gargalhada, para dizer, de seguida, que o facto de ser Mulher, lhe permitiu “passar entre os pingos da chuva… coitada, é uma Mulher e tal”!

E não será isso outra forma de discriminação? “Sim, claro, mas acaba por ser positivo, porque acabei por fazer valer os meus pontos de vista”!

Agora que a Indonésia desanexou Timor, e que o território caminha para a independência, Ana Gomes, esperançada, considera que “a situação está a melhorar de dia para dia“. Ainda assim, não disfarça a preocupação, em termos imediatos, por causa da coordenação da ajuda humanitária de emergência.

A breve prazo, a diplomata portuguesa desvaloriza eventuais divisões entre a Resistência Timorense. Considera mesmo natural que elas existam: “a Resistência funcionou em condições extraordinárias e é quase milagroso como conseguiu levar a sua barca a bom porto!

Ramos Horta e Xanana Gusmão só se encontraram pessoalmente, pela primeira vez, este ano, em Jacarta! Durante estes anos, nunca se tinham falado!

Quando o Ramos Horta saíu de Timor Leste, Xanana era um rapazinho a quem não se ligava muito! (…) Portanto, é perfeitamente natural que haja divergências, afinações, e é quase salutar que isso aconteça! (…)

A grande questão está em saber como é que elas vão ser resolvidas”… porque, “mais do que reconstruir, é preciso construir Timor.”

Outra questão que preocupa Ana Gomes é o futuro da Indonésia. Mais do que a Austrália, a Indonésia “é o grande vizinho de Timor, com o qual Timor, para sobreviver, tem que ter um bom relacionamento”.

E isso vai “depender muito da evolução interna da Indonésia, e ainda não é claro o que vai passar-se”, apesar da recente eleição e da constituição do governo actual.

Apesar das muitas feridas “ainda em carne viva”, Ana Gomes pensa que é “possível e desejável” que Timor e a Indonésia mantenham relações “normais”. “Sei que os dirigentes timorenses estão empenhados nisso… é um povo maduro e a prova está em que se anuncia para breve uma visita do Comandante Xanana Gusmão a Jacarta”.

Xanana, que Ana Gomes acredita, “não vai furtar-se às responsabilidades que lhe vierem a incumbir!”, quando chegar a hora de os timorenses escolherem o Presidente. É sabido que Xanana tem dito e repetido que não quer ser Presidente, mas, para Ana Gomes, “essa questão não se põe!”.

Quanto ao futuro, a diplomata portuguesa não exclui a possibilidade de chegar, um dia, a ocupar o lugar de primeira Embaixadora de Portugal em Timor Loro Sae. Sublinha que “essa questão depende do Ministério dos Negócios Estrangeiros”, mas vai dizendo que “gostaria! Estou ligada, naturalmente, a Timor”.

Com alguma emoção na voz, Ana Gomes destaca que o mais importante agora é que “vou ficar sempre ligada a Timor, esteja onde estiver… embora, às vezes, Timor não exista lá… quando cheguei a Tóquio, não se falava lá de Timor; e a mesma coisa em Londres; e eu continuei sempre a trabalhar por Timor. É uma causa com a qual me envolvi!”

Por isso mesmo, a recordação do Massacre do Cemitério de Santa Cruz que, há 8 anos, acordou o mundo para o drama de Timor, provoca em Ana Gomes um silêncio constrangedor.

Ao fim de alguns segundos, esta mulher jovem, mas com o brilho do cansaço nos olhos, deixa uma clara mensagem de esperança para aquela Terra do Sol Nascente: “o povo, finalmente, conseguiu expressar a sua voz sobre o seu futuro e está agora a caminhar para a independência… ninguém mais lha vai roubar!

É o momento de mostrar, mais uma vez, a grandeza da Alma Timorense, na construção de um novo País”.

Uma tarefa complexa, em que todas as mãos são indispensáveis. Até mesmo aquelas que, à distância de muitos milhares de quilómetros, se limitam a escrever algumas linhas sobre a causa de Timor.

Para Ana Gomes, a Internet é um “excelente meio” para dar conta “do sacrifício desmesurado da Mulher face ao Homem. Os direitos humanos da mulher timorense deverão ser uma grande prioridade desta nova fase da construção deste país que será Timor”.

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