Maria Armanda – A Voz do Fado

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Maria Armanda
Maria Armanda

Fomos encontrar Maria Armanda quando se preparava para mais uma actuação em ‘Tem a Palavra a Revista’, onde é atracção, desta feita em Almada, e não no Parque Mayer, zona que os artistas lutam para manter de pé. Uma actuação para idosos levou a revista até à velhinha Academia de Almada, onde fomos falar com a fadista Maria Armanda, uma conversa feita de recordações e projectos futuros, entremeada com muita diversão.

‘Já canto há trinta e um anos, comecei por actuar nos festivais da canção da Figueira da Foz e de Espinho. Embora tenha começado no mundo da canção, achei que seria apenas mais uma nessa área e optei pelo fado, que já cantava desde miúda. Tenho-me sentido muito bem e é uma área em que, felizmente, não nos falta trabalho, porque além dos espectáculos, as casas de fado também nos procuram. Acho que o fado é o que de mais genuíno temos porque não se copia ninguém, é uma forma única de cantar. No entanto, a minha meta era chegar ao teatro de revista e foi pela mão de César de Oliveira e Henrique Santana que aqui cheguei.’

As primeiras actuações foram no Teatro Laura Alves, mas 15 dias depois da sua estreia surgiriam dois convites para actuar no Parque Mayer, tendo optado pelo Teatro Maria Vitória, onde regressa agora ao fim de vários anos.

‘Na altura fiz quatro revistas seguidas e depois parei um pouco. Embora goste imenso de teatro, este limita-nos um pouco. Na altura em que comecei, trabalhávamos todos os dias da semana, excepto à segunda-feira, com duas sessões por noite e aos fins-de-semana três. Optei por sair, mas sempre ouvi dizer que quem vinha ao teatro ficava com o bichinho e eu não fui excepção. Foi uma honra muito grande voltar ao fim deste tempo por convite de um casal espectacular, dois profissionais incríveis com um coração enorme que são o José Raposo e a Maria João Abreu.’

Numa revista que é, acima de tudo, um grito de luta contra o fecho do parque Mayer, este é um tema que também toca muito Maria Armanda.

‘Participo na luta, e não se pense que são apenas os artistas que estão em cena no Maria Vitória mas penso que qualquer artista, seja da canção ou do teatro, tem de fazer qualquer coisa para que o Parque não acabe, embora não acredite que tal não venha a acontecer, mas enquanto há vida há esperança. Sinto que tudo o que ali se passa é um horror e que o Governo devia intervir, mesmo tratando-se de um espaço privado.’

E com tantos problemas para o mundo do espectáculo português, é difícil ser fadista em Portugal?

‘O que é difícil é ser artista em Portugal, porque realmente isto é um país muito pequeno. A culpa nem sequer é do público, que nos adora e que gostaria muito que a televisão mostrasse mais música portuguesa, mais fado, o que não acontece. O que aqui está em causa são as entidades superiores que não olham para os artistas com o respeito que eles merecem.’

Falar de fado é falar de Amália, até porque um dos quadros do ‘Tem a Palavra a Revista’ é uma homenagem sentida a Amália, interpretada por Maria Armanda.

‘Todas as vezes que subo ao palco do Teatro Maria Vitória estou a homenagear Amália, porque acho que este país não a homenageou nem em vida, nem em morte como ela realmente merecia. Amália é uma referência enorme. Quando viajamos para o estrangeiro, nos perguntam de onde somos e dizemos que somos portugueses, imediatamente o nome de Amália é falado. Portugal não teve ainda a noção exacta daquilo que ela foi para o nosso país, foi uma perda enorme e ainda não nasceu ninguém que possa fazer uma carreira como ela e não existe mais ninguém senão ela.’

Todos os fadistas têm um fado que os toca particularmente e Maria Armanda não é excepção.

‘Tenho sido muito exigente com o meu repertório e uma das minhas metas era cantar poemas de José Carlos Ary dos Santos, e o que me dá um prazer e uma honra muito grande é que o Ary dos Santos tivesse composto letras e poemas para mim. Há um poema lindíssimo que adoro cantar, não porque o seja, mas que me toca pela sua beleza que é o ‘Mãe Solteira’, com música de Nuno Nazaré Fernandes e poema de Ary dos Santos’

O mundo do espectáculo é conhecido como sendo extremamente supersticioso, mas Maria Armanda não partilha desse aspecto, embora tenha uma história para contar.

‘Superstições no mundo do fado não conheço nenhuma, mas também não o sou, embora os artistas de palco sejam muito supersticiosos. Lembro-me de uma história engraçada passada numa revista com o Salvador e a Ivone Silva, em que estávamos todos no palco a fazer a despedida e estava ao meu lado um artista a quem disse, muito baixinho, uma frase em que entrava a palavra ‘azar’. Imediatamente ele baixou-se e tocou três vezes com a mão nas tábuas do palco, o que não entendi. Ele endireitou-se e eu tornei a repetir a mesma frase, e de novo todo o ritual. No fim, apercebi-me e fui um bocado mázinha, tendo levado o tempo todo que ali estivemos a dizer o mesmo e ele subia e descia, sempre repetindo o ritual.’

Das pessoas com quem trabalhou, guarda recordações e emoções que partilhou com a Mulher Portuguesa:

‘Tive momentos incríveis com a Ivone Silva, fiz a última revista dela com o Camilo de Oliveira, já ela estava muito doente. Recordo-a com muita emoção. Certa vez liguei o rádio e ouvi uma entrevista com a Ivone em que ela falava da revista, e de mim disse que eu tinha uma enorme presença em palco e que nem precisava de cenários, algo que nunca mais vou esquecer. A minha presença pode ser forte, mas tão forte como realmente era a dela, não existe ninguém.’

Depois do fado…

Tenho sempre projectos e metas a alcançar, quero continuar a ter saúde e a cantar e a gravar discos, se bem que tenho dito sempre que não será por muito mais tempo, porque penso que tudo tem um limite e um tempo para acabar. Tenho pavor ao ridículo mas talvez me mantenha ainda mais cinco anos, para estar em pleno e depois dizer assim: “pronto, agora tudo bem, vou deixar o meu espaço para outras pessoas”. Isto não quer dizer que acabe completamente de cantar mas talvez cante apenas quando me apetecer.

E a voz de Maria Armanda ficará com certeza para sempre nos anais da história do fado português.

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