Entrevista com a Prof.ª Odette Ferreira

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Professora Odete Ferreira
Professora Odete Ferreira

Odette Ferreira é a coordenadora da Comissão Nacional de Luta contra a Sida. Uma cientista de renome, reconhecida internacionalmente, é professora catedrática da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa e dedica-se de corpo e alma à batalha contra o HIV.

Pondo de parte todos os títulos a que tem direito, aposta essencialmente na proximidade junto das pessoas para as quais o seu trabalho é vocacionado. A sua actuação “em campo” e a humanidade com que desempenha o seu papel tornaram-na conhecida junto das comunidades de toxicodependentes, de imigrantes e de homossexuais, que reconhecem e retribuem o carinho e a dedicação com que são tratados.

Pondo todo o seu estudo e conhecimento ao serviço de uma causa em que acredita, a prof.ª Odette Ferreira é sem dúvida uma das mulheres portuguesas cujo trabalho é mais reconhecido, tanto a nível científico – com as suas valiosas contribuições no âmbito da investigação – como ao nível da solidariedade e do apoio aos doentes de Sida.

A Mulher Portuguesa foi conversar com a prof.ª Odette Ferreira, na véspera do Dia Mundial da Luta Contra a Sida.

Prof.ª Odette Ferreira

No Dia Mundial da Luta Contra a Sida é costume recordar-se as vítimas desta doença, mas é também a altura indicada para de certa forma celebrar os progressos científicos no âmbito do tratamento e do combate ao HIV. Desde o último dia 1 de Dezembro, o que é merece ser celebrado nesse campo?

Existem evidentemente alguns avanços no âmbito da ciência, existem novos conhecimentos que nos permitem melhorar a terapêutica. Conheceram-se novos receptores para o vírus e esses conhecimentos permitiram elaborar novos medicamentos contra esses novos alvos. Há grandes melhorias no âmbito da terapêutica, apesar de não haver aquelas descobertas espectaculares como houve no início.

Há pequenos avanços que vão melhorar significativamente as terapêuticas. Temos esperanças que, a curto prazo, os doentes deixem de ser tão “escravos” dos tratamentos, que não tenham de tomar tanta quantidade de medicamentos e que sofram menos dos efeitos secundários.

Considera que Portugal está ao nível dos restantes países europeus no que toca ao tratamento e acompanhamento dos doentes de Sida?

Absolutamente. Quando apareceu, há três anos, o novo medicamento – a anti-protease – Portugal foi dos primeiros países a utilizá-lo. Em relação à terapêutica, Portugal está precisamente na mesma posição que os outros países mais desenvolvidos.

O tratamento é gratuito, o que não acontece em todos os países, e mesmo em relação à parte laboratorial, Portugal está ao mesmo nível que os outros países e, inclusive, já estamos preparados para as novas tecnologias que vão ser introduzidas a partir do ano 2000 a nível laboratorial.

Os laboratórios já estão mais descentralizados, não existem só em Lisboa, e apesar de serem poucos já são capazes de dar resposta à introdução dessas novas tecnologias que vêm certamente substituir as tradicionais.

Quando falamos em Sida, imediatamente ligamos a questão aos chamados “grupos de risco”. Mas, relativamente a este ponto, a prof.ª Odette Ferreira esclarece-nos:

Não existem “grupos de risco”, essa designação foi banida há uns anos. Hoje em dia referimo-nos a “comportamentos de risco”. Toda e qualquer pessoa tem um comportamento de risco se partilhar seringas, se tiver relações sexuais sem protecção… não podemos ter a ideia de que só determinados grupos correm o risco de ser infectados pelo vírus da Sida. Qualquer pessoa pode ser infectada se tiver determinado comportamento, considerado de risco.

Por isso existem programas para as pessoas cujo comportamento representa um maior risco de serem infectadas, as pessoas que se prostituem, por exemplo. E temos programas vocacionados para a juventude, para idades cada vez mais baixas, para que possam compreender que existe uma doença que não se conseguiu ainda controlar, que estamos perante uma pandemia – porque a Sida existe a nível mundial – e por isso deve ser combatida sob esse aspecto.

Temos programas efectuados com a colaboração de vários ministérios e dirigidos especificamente a determinados grupos, incluindo as minorias étnicas, as mulheres, as crianças, as empresas… Sempre com o objectivo de informar, promover a prevenção e evitar a discriminação para com as pessoas infectadas.

Apesar de toda a informação disponível, e sem dúvida que é muita, o número de pessoas infectadas continua a aumentar. Pensa que isso se deve a uma falta de consciencialização para o problema da Sida, apesar do volume de informação?

Acima de tudo, é preciso educar a população. É uma questão cultural. E a educação tem de começar desde cedo, em casa. As pessoas não podem pensar que a educação dos filhos tem de ser da responsabilidade do governo. A informação não basta, porque as pessoas têm de compreender essa informação.

E para compreender é necessário que sejam educadas, que saibam o porquê das coisas e que essa educação seja feita de forma permanente e contínua, especialmente nas escolas. E isso passa pela formação dos professores.

É também importante que os pais também sejam educados de forma a que não contrariem em casa o que os filhos aprendem na escola. A nível universitário a mesma coisa. Entre os jovens, é necessário formar os “líderes”, aqueles jovens com capacidade de “arrastar” os outros.

A propósito das mais recentes descobertas no âmbito dos tratamentos, foi dito que a sida está a deixar de ser uma doença mortal para passar a ser uma doença crónica. Até que ponto é que isto já é verdade?

Por um lado essa informação é verdadeira. Uma cura para a sida, não vamos ter tão depressa, nem sequer podemos saber se algum dia teremos uma cura ou mesmo uma vacina. Mas a terapêutica tem melhorado bastante e temos esperanças de no futuro transformarmos a sida numa doença crónica. Ainda não é.

Não nos basta uma terapêutica contra o vírus, mas também uma terapêutica de estimulação do sistema imunitário. Vamos conhecendo cada vez melhor essa terapêutica e podemos dar uma esperança nesse sentido às pessoas infectadas.

Os números avançados pelo último relatório da UNAIDS revelam uma contradição bastante preocupante: Por um lado, o número de casos de Sida tem diminuído, porque a terapêutica é melhor, mas o número de portadores do vírus tem aumentado.

Este fenómeno é dramático: as pessoas pensam que, perante a hipótese de a sida ser uma doença crónica, e não mortal, deixa de ser necessária a protecção. Isto acontece em Inglaterra e nos Estados Unidos, por exemplo.

Num estudo feito junto da comunidade gay em S. Francisco apurou-se que, se antes apenas 1/3 dos homossexuais praticavam o sexo sem protecção, hoje em dia esse número aumentou para 50%. Se por um lado nós pensamos que a divulgação desta informação é uma esperança para os doentes, por outro lado caiu-se num erro gravíssimo, porque as pessoas deixam de preocupar-se com a protecção.

E é também importante lembrar que a terapêutica não é nada agradável. Tomam-se 30 ou 40 comprimidos por dia, durante toda a vida, e sofrem-se os efeitos secundários, que também não são agradáveis: vómitos, dores de cabeça, diarreias… não é uma terapêutica fácil. Estamos a trabalhar para que ela melhore, para que se torne mais tolerável.

Mas não podemos permitir que, à conta do progresso da terapêutica haja uma menor preocupação em prevenir a doença. Afinal, a prevenção é a arma mais segura que temos contra a Sida.

A nível mundial, o acesso ao tratamento está disponível apenas a uma minoria…

Os casos em que é possível fazer terapêutica representam apenas 5%, já que 95% das pessoas infectadas vivem em África e no sudoeste asiático e nestes países é quase impossível haver tratamento.

As condições em que estes países vivem não lhes permite considerar a Sida uma doença prioritária, porque a prioridade deles é a mera sobrevivência, o combate à fome. Vivem em condições sub-humanas e aí torna-se muito difícil erradicar uma doença deste tipo ou mesmo ter uma noção exacta do número de pessoas infectadas.

Apesar de o problema da Sida ser ainda tão dramático, até que ponto é que o seu trabalho à frente da Comissão tem sido gratificante?

Eu comecei na investigação, fui a primeira pessoa a falar da Sida em Portugal. Chamei a atenção para a gravidade da situação quando as pessoas ainda não acreditavam muito no problema.

Sinto que ao longo da minha vida tenho contribuído para chamar a atenção para a Sida, não só com investigação mas também para melhorar a informação da população, para melhorar as condições de tratamento das pessoas infectadas e a qualidade de vida dos doentes.

Quando olho para trás, acho que valeu a pena. Vejo que tenho uma equipa boa, que se sacrifica. Uma equipa que acredita no que está a fazer. Em comparação com os outros países, sinto orgulho no nosso programa, e vamos sempre procurando melhorar. Julgo que posso fazer um balanço positivo.

E o facto de ser reconhecida junto dos doentes, o facto de saber que confiam em mim e sentem a proximidade com que procuro desempenhar as tarefas da comissão, é sem dúvida gratificante.

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