As Palavras de Maria Lucília Bonacho

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As noites de Elim
As noites de Elim

Este livro é o meu livro… Foi com estas palavras que Maria Lucília Bonacho nos apresentou a sua última obra As Noites de Elim, cujo lançamento vai ocorrer hoje, pelas 18h30, em Campo de Ourique. Fomos ter com a escritora a sua casa. A nossa missão: falar sobre o seu último trabalho mas, também, sobre o que é escrever.

Recebeu-nos uma senhora que, desde logo, se mostrou pouco à vontade para estas situações. “Sou um bocado bicho-do-mato” foi como Maria Lucília se descreveu.

Aqui ficam fragmentos de uma conversa que nos deu a conhecer uma mulher apaixonada pelo que faz. As Noites de Elim fala-nos de uma pessoa que acaba de atravessar um deserto e que encontra um oásis, onde acaba por acampar. Aí, enquanto aguarda “por aquilo que ele espera que seja o fim”, vai reflectindo sobre tudo o que o rodeia.

Mas este não é um deserto como outro qualquer – é antes um símbolo “da alma da pessoa, normalmente em provação, dos tempos difíceis em que nos sentimos em baixo e angustiados.”

Este é, assim, um livro escrito a pensar num determinado tipo de pessoas, naquelas que têm um qualquer tipo de fé.

Mas e as noites de Elim?

“Depois de estruturada, a história não tinha título. E eu comecei a pensar onde é que havia muitos nomes de desertos. A Bíblia está cheia de desertos, pelo menos o Antigo Testamento. Por isso, abri o livro do Êxodo à procura de qualquer coisa E encontrei, numa passagem, o nome de Elim”.

A publicação deste livro surgiu um pouco por acaso Helena Rocha, a editora da escritora, pediu-lhe que visse um texto religioso de um outro autor – coisa que Maria Lucília não gosta de fazer.

Perante a sua recusa, a editora acaba por levar um original de Maria Lucília sobre o mesmo tema. Leu-o e decidiu publicá-lo nesse mesmo ano.

“É um livro que de facto me deu muito gosto a escrever. Não é aquele estilo de livro que nós sabemos o que está na nossa cabeça e que depois vamos avançando É um livro que foi surgindo em vagas, não digo ditado, mas que foi escutado”

Incapaz de escrever por encomenda, a escrita para Maria Lucília é, acima de tudo, um acto bastante pessoal, que exige isolamento e silêncio exterior e interior.

É um momento “de fuga para outros sítios, é como se abrisse uma cortina e passasse para outro lado, um sítio imaginário onde posso conviver com personagens a quem dou determinadas características. É um exercício muito gratificante”

O importante é mesmo escrever uma história de que goste e, para isso, nada melhor do que uma resma de papel branquinho e muitos marcadores pretos – escrever directamente no computador nunca.

Quando lhe pedimos para caracterizar a sua escrita, respondeu-nos que não sabia nada sobre isso. Mas adianta que escreve de forma simples e profunda, isto é, o que procura é transmitir a profundidade através da simplicidade.

“Detesto livros em que avançamos no texto como quem empunha uma catana virtual, a desbravar as frases até as entendermos. Gosto que uma pessoa agarre no livro e vá por aí fora, tranquila e bem-disposta, gostando daquilo que está a ler. É assim que eu gosto”

E As Noites de Elim não fogem à regra A sua autora define-o como um livro escrito em prosa poética onde, por vezes, as próprias palavras rimam no interior das frases, de maneira a que estas “quase que cantem”.

Maria Lucília explica-nos ainda que “um texto destes não pode ser árido, não se pode afastar da verdade teológica, mas pode ser dito com muita beleza, com muita simplicidade e jogando com os cinco sentidos.”

Esta simplicidade na maneira de escrever estende-se também à própria leitura Saint Exupery (autor de O Principezinho, A Cidadela ou A Terra dos Homens) é o primeiro nome que destaca.

Mas há mais “Gosto muito da maneira de escrever da Agatha Christie porque era uma pessoa que, além de ser muito inteligente, era muito sensível e perspicaz. Agrada-me muito ler um texto que tem interesse, com uma base humana razoável.”

Maria Lucília Bonacho nasceu em Setúbal e frequentou o Liceu Nacional desta cidade. Cedo veio para Lisboa para estudar Germânicas no Colégio da Bafureira, na Parede.

Nesse estabelecimento de ensino conheceu Maria do Céu Guerra, animadora nata de um grupo restrito de pessoas do qual ambas faziam parte. “Um belo dia a Céu, que tinha lido algumas coisas minhas que circulavam, pediu-me um conto para a mãe dela (Carlota Alves da Guerra) publicar na revista Crónica Feminina. E assim foi.”

Entretanto, outras oportunidades foram surgindo e, é com agrado, que Maria Lucília vê alguns dos seus contos publicados em jornais e revistas como o Diário de Notícias, Flama ou na revista universitária Tempo, cujo director (Adelino Amaro da Costa) era irmão de uma amiga da escritora.

Já andava na faculdade quando ganhou coragem e decidiu mandar um conto de Natal de 3/4 páginas para a editora Verbo. E “qual não é o meu espanto quando, na volta, recebo uma convocação para lá ir. Foi atendida por um senhor muito simpático, o Fernando Guedes, que me disse que comprava os direitos de autor do livro por 3 contos”.

A Bola do João Vai-Vem tornou-se, assim, o primeiro livro publicado por Maria Lucília e o único, até hoje, escrito para crianças. “Passado uns tempos, uma pessoa amiga pediu-me para ver o dossier onde eu tinha guardados os meus contos e, sem eu o saber, mostrou-os a um senhor da editora Aster que me telefonou para saber se podia publicá-los”, esclarece a escritora.

Surge então A Herança do Príncipe Boémio, um livro de contos para adultos, “sem pretensões nenhumas e escrito com bastante simplicidade”.

Problemas familiares afastaram-na do mundo da escrita durante muito tempo até que, há dois anos atrás, mandou um original (já recusado por outras editoras) para a editora Diel, dirigida por uma engenheira que conhecia Maria Lucília dos tempos da faculdade e que gostava do que ela escrevia.

Em apenas 2 meses a primeira edição de O Futuro Está a Estudar acabou por esgotar. Apesar da acção se passar numa escola, este é um livro para adultos podendo, no entanto, ser lido por adolescentes.

O Futuro Está a Estudar tem como base evidente “a minha experiência de directora de turma e a minha participação em reuniões de pais e concelhos pedagógicos”. Maria Lucília continua hoje, aliás, a dividir a sua vida entre a escrita e o ensino da História.

Para este livro, a escritora pediu um prefácio a Matilde Rosa Araújo, também ela professora. “Foi um encanto, um amor Estou-lhe muito grata porque ela recebeu-me com muita amabilidade”, comenta Maria Lucília.

Além dos livros e de algumas participações em colectâneas, a escritora também já fez pequenos textos de suporte a algumas obras da escultura Antonieta Roque Gameiro.

Depois de As Noites de Elim, outros projectos já se encontram preparados: escrever mais ou menos um livro por ano parece ser o objectivo.

“Um já está escrito mas está muito sintetizado: os capítulos precisam de ser expandidos. Mais uns meses e fica pronto. Ela Gostava de Rosas é o título Depois tenho outro que nem sequer está esboçado mas que exige muita pesquisa porque vai-se passar num sítio que eu conheço mal – Alfama.”

Ficamos à espera!

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