Crónica: Retratos de violência da nossa sociedade

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Cronistas da MulherPortuguesa
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Os retratos de violência na nossa sociedade parecem ser esporádicos, mas não o são. Alojam-se nas escolas, nos colegas, professores,…

O nosso país é um território pacífíco, sem guerras, grupos terroristas ou grandes dramas sensacionalistas. Apenas, aparentemente, porque a realidade cruel e mesquinha esconde-se silenciosamente.

Retratos de violência

Num rasgo de fúria, debruçado sobre um qualquer supermercado, escola, comboio ou num beco perdido entre bairros degradados, o rosto da violência espreita em cada gesto de miséria, de desconforto social, em cada hálito inconformista de sobrevivência.

Retratos de violência infantil escondem-se no embrião da sociedade, que de braços cruzados assiste impávida, em busca de medidas teóricas muito longe do rigor da prática e das necessidades reais.

Crianças, sim porque é de crianças que se trata, realizam furtos, consomem e traficam droga, protagonizam actos de vandalismo, sem pudor ou consciência.

Onde iremos chegar com este horizonte lastimável e de pura destruição? A resposta, ainda incerta, não poderá ser a melhor, nem tão pouco a desejada.

Inadmissível como jovens entre os 13 e os 18 anos praticam actos, como os que acabámos de assistir nas últimas semanas.

O assalto a um comboio na direcção de Cascais, onde jovens invadem carruagens e se tornam livres para assaltar pessoas indefesas. O comportamento deste grupo de adolescentes é lamentável, mas é de referir também a ausência daqueles que se afirmam defensores da integridade física e psicológica dos seres humanos.

Onde estavam? A patrulhar bairros degradados em condições precárias, com o fruto proibido à sua frente e a fechar os olhos, porque, se calhar, não estavam para se chatear.

Jovens possuidores de armas brancas e de fogo passeiam-se pelas ruas, em busca de uma nova presa ou então, possuem-nas apenas para se defenderem, dizem. De quem? Da sociedade, de outros jovens provenientes de bairros rivais e opostos, onde o embrião da lei da vida é o mesmo.

Andam sózinhos, mas na maioria das vezes organizam-se em grupos. Foi num desses atritos entre grupos rivais, que as Galinheiras foi palco de um tiroteio. Tudo devido a simples piropos, frases soltadas no desejo característico da flor da idade, que motivaram um ajuste de contas.

Armas de grande calibre eram as suas defesas, que valeram a morte de 7 pessoas, 2 crianças e um bebé.

Outro retrato de violência. Cinco jovens espancaram e levaram à morte um homem na casa dos 40. Selvaticamente, às cegas, irados de um qualquer sentimento de ordem psicológica e social. Mas, o que mais assusta e me repugna, é que este acto foi praticado por causa de um troféu mesquinho: 2 isqueiros, um maço de tabaco e menos de 50$00.

Ridículo, inexplicável, aterrador. Estes retratos não são exclusividade de uma qualquer raça, ideologia política, cor de pele ou de naturalidades idênticas.

Estes retratos são o olhar pálido, ausente de passado ou de futuro, centrado no abandono das famílias, numa necessidade de carinho e amor que nunca conheceram, na falta de estabilidade emocional que nunca encontraram.

Os retratos de violência na nossa sociedade parecem ser esporádicos, mas não o são. Alojam-se nas escolas, nos colegas, professores, desconhecidos, em qualquer pessoa que se lhes depare no seu caminho, e em qualquer invólucro espacial.

Actos de vandalismo intenso revoltados contra uma sociedade de expectativas e sonhos, nos quais não há lugar para eles. Nunca houve, nem nunca haverá. Culpas para quem? A resposta é, ainda, incógnita…

Cronista da Mulher Portuguesa: Ana Amante

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