Crónica: Os Woodstocks Portugueses

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Cronistas da MulherPortuguesa
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Alojam-se em locais pacíficos do mapa português, muita natureza, farra, diversão, bebida, e música, muita música. O mundo é ‘deles’, e vestem-se de liberdade por alguns dias! São os Woodstocks Portugueses!

Os Woodstocks Portugueses

Nunca fui a nenhum dos Festivais de Verão! Não porque não aprecie a natureza, a diversão, a boa música, a festa, mas, simplesmente, porque nunca calhou! Porém, o Festival do Sudoeste, o de Paredes de Coura, ou o de Vilar de Mouros guardam histórias secretas, a que muitos não têm acesso. Porquê?

Porque fazem parte de um culto especial que todos os anos se realiza, ao som de muita música, álcool e charros. Sim, charros! Há que o dizer, porque é uma presença habitual neste tipo de festivais, e só não vê quem não quer ver! Mas, nem só de charros, cerveja e vinho se vive nestes festivais. Acima de tudo, fazem-se amizades que, habitualmente, reencontram-se um ano mais tarde, pela mesma ocasião!

Entrar no espaço de um destes festivais é uma sensação do outro mundo (disseram-me quem já lá esteve!). É amigo para ali, bacano para acolá, e a massa jovem é tal, que parece que Portugal inteiro se concentrou nesse espaço. Claro que há sempre pontos negativos!

Muitas vezes o pó, as filas para se chegar a algum sítio, o desejo de querer dormir um pouco à noite, sem que, contudo, se consiga. Invadem a pacata vila, porque todos os festivais se situam em locais pacatos e de gentes pouco habituadas a confusões, e durante três dias, às vezes quatro, ‘curtem’ ao máximo o festival, e esquecem os 250€ que deram para estar ali.

Não importa! Ir a Vilar de Mouros, Paredes de Coura, ou à Zambujeira, vale muito mais do que umas parcas notas de conto pela entrada. Isto sem contar com o dinheiro que se gasta, e é preciso poupá-lo, em comida, gasolina, se for de carro, ou no bilhete, se for de transporte, naquelas ‘coisinhas‘ que se acabam sempre por comprar (uns brincos, fio, ou cachimbo, para os mais irreverentes), e no néctar do Deus Baco ou nos frequentes sumos de cevada, que a ‘guita’ (dinheiro) também não é assim tanta.

Se pensa em ir até um destes, talvez para o ano, acredite que não vai conseguir dormir! Em primeiro lugar, porque ninguém vai para um festival deste teor para ‘bater ronco’(dormir, portanto). Em segundo lugar, porque isso é um desejo totalmente impossível!

As conversas, risadas, batuques, duram até altas horas, às vezes até mesmo ao ‘romper da aurora’ (esta fez-me lembrar um ‘moda popular’ alentejana…), e acredite que descansar é só quando chegar à sua querida e doce ‘caminha’.

Prepare-se para desbravar névoas e névoas de fumo, qual delas com o cheiro mais intenso, e para ter que ‘levar’ com alguém mais alcoolizado, que a escolheu a si para contar as desgraças, se as entender como tal, da sua vida amorosa!

Por falar em vida amorosa, nestes festivais é também comum surgirem paixões. Afinal, o espírito e o próprio cenário conduz a esse tipo de sentimento. Paixões esporádicas, mais sérias, menos empolgantes, estranhas, ou simplesmente inesquecíveis.

Tudo pode suceder aqui, desde que vá com o espírito aberto e completamente livre! Criam-se amizades! Muitas amizades! Jovens que compartilham confidências, já que por vezes é bem mais simples contar atritos e problemas da existência humana a pessoas que nunca viu na vida!

Trocam-se números de telemóvel (de telemóvel, e não de telefone), endereços de email, e confirma-se o encontro naquele dia, quando for até à terra da outra pessoa, com uma amiga que tem uma casa lá perto. Promessas que a lua e o sol testemunham, rasgos de recordações, algumas lágrimas, porque o álcool e os charros nem sempre dão para rir, sempre invadidos pelos ritmos da música.

Pensei eu, e também acho que não idealizei assim uma coisa tão utópica, que os mais velhos, tipo cinquentões, sessentões, e por aí fora, também deviam ter assim um festival de música, especialmente para eles.

Lógico que encontraríamos outro tipo de situações: os concertos teriam que começar antes do sol se esconder, e depois da meia noite não havia música para ninguém, Silêncio total!

À noite, em vez dos batuques, o ‘ronco’ seria a expressão vocal dominante, e logo pela manhã, bem cedinho, seria vê-los a jogar uma cartada, com um pratinho de muelas e um copinho de vinho. Ah! Sem nunca esquecer o palito ao canto da boca!

A tarde prosseguia silenciosa para alguns (afinal, é a hora da sesta!), e para os restantes mais umas partidas de cartas, o jogo da malha, ou uns jogos que não implicassem muito esforço. A idade não perdoa!

Seria também uma oportunidade para que todos se pudessem encontrar, alentejanos com transmontanos, ribatejanos com algarvios, e quem sabe também não surgissem algumas histórias de amor. Não tão excitantes como as dos jovens, pois também neste campo a idade não perdoa!

Sons bem mais calmos, uns ranchos folclóricos, fados para os mais saudosos, muito música popular, poderia ser um cartaz bem atraente para eles. Sempre alegres, bem dispostos, porque também eles se sabem divertir, à sua maneira!

Teríamos, assim, um ‘Woodstock Português’ bem diferente dos actuais, mas igualmente empolgante e que, com toda a certeza, juntaria uma quantidade de adeptos interessante. Falta-me é um nome para o evento, mas talvez pudesse ser ‘Festival de Cabeça Gorda’ (localidade perto de Beja) ou ‘Festival de Bogas de Cima’ (na zona de Castelo Branco). O que vos parece?

Isto de falar dos festivais de Verão revolta-me um bocadinho, porque nunca tive o prazer, digo eu que fosse um prazer, de estar em nenhum.

O que significa que tudo o que aqui foi dito é fruto de uma investigação exaustiva com alguns amigos meus, frequentadores destes acontecimentos, e resultante também da minha fértil imaginação, nomeadamente no que diz respeito ao festival para os mais velhos. Atenção! Jovens ou menos jovens podem ir a qualquer um dos Festivais de Verão!

Aliás, há pessoas com 40 ou 50 anos que mantêm ainda um espírito bem jovial, e que aproveitam para dar uma escapadela até lá. Por isso, esses festivais que propus destinam-se apenas a pessoas mais pacatas, conformadas com o peso da idade, e que já se acomodaram no aconchego do seu lar, cerrando os olhos para as belezas da vida. Sim, porque as portas destes festivais estão abertos a todos!

Dou-vos um conselho: quando tiverem oportunidade, novos ou menos novos, vão até um destes festivais, deliciem-se com a música, e divirtam-se bastante. Se a idade pesa em algumas coisas, que, eu sei, você gostaria que não pesasse, para a diversão você será sempre um jovem, se assim quiser.

E, essa diversão é você que a faz, num festival de Verão, num jogo da malha, ou numa simples viagem ao passado. Por isso, desbundem bué e curtam à brava! (Eu já não tenho idade para esta linguagem, mas o espírito de Verão, e estes Woodstocks Portugueses, contagiam-me! O que é que querem que eu faça?)

Cronista da Mulher Portuguesa: Ana Amante

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