Crónica: Ai Meu Deus, Sou Gorda!

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Crónica da Mulher Portuguesa
Crónica da Mulher Portuguesa

Mas enquanto algumas olham com ar esfomeado para um pastel de nata, eu devoro-o e sinto-me muito bem. É irresistível. Passo por uma pastelaria e os meus olhos descaem sobre os petiscos e guloseimas que parecem saber o meu nome e por mim chamam.

Ai Meu Deus, Sou Gorda!

E como me educaram a responder sempre que me interpelam, vou respondendo, ou seja, vou chamando os bolos pelos seus nomes.

Mas tenho pena. Palavra. O quê? De mim? Não!!

Tenho pena dos olhares esgazeados que vejo perto de mim, de raparigas, senhoras ou jovens que olham para a vitrine, com a boca cheia de saliva enquanto mastigam, como penitentes, um pequeno pão de leite simples ou uma torrada sem manteiga.

Quanto a mim, vou comendo o meu mil folhas, a torta de creme ou outro em que os meus olhos caiam. Mas confesso que por vezes a primeira dentada me custa. Qualquer pessoa que tenha visto aquelas imagens de crianças esfomeadas percebe o que quero dizer e como pode ser incomodativo aqueles olhares deitados por pessoas para quem a moda de ser escanzelada está acima de qualquer pequeno prazer gustativo.

E pode pensar que me sinto mal na praia ou noutros locais. Não, apenas amofino quando me sento em cadeiras construídas para Barbies. E quanto à praia, é aí que mais me divirto.

Podem até olhar para contemplar um pouco melhor o meu fato de banho amarelo (não uso biquini por uma questão prática, as braçadas vigorosas com que me mantenho à tona não são compatíveis com o pequeno pedaço de tecido que cobriria os meus seios generosos) mas depois é a minha vez de rir enquanto vejo aqueles esqueletos sem uma ponta de gordura que não conseguem enfrentar a baixa temperatura da água, enquanto eu, bem protegida pela minha camada adiposa, mergulho de cabeça e nado, sim, podem dizê-lo, que nem uma baleia. Mas que sereia se compara à graciosidade de uma baleia dentro de água, não me dizem?

E nem mesmo o espelho ou a balança me tiram a alegria. O truque? Tenho em casa um espelho que apenas apanha o rosto e algum cabelo e quanto à balança, tenho apenas a de cozinha para pesar os ingredientes das receitas com que ocupo os meus tempos livres.

Afinal a vida são dois dias e o doce Natal está já aí.

Cronista da Mulher Portuguesa: Maria do Carmo Torres

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