Crónica: a caminho do fosso económico

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Cronistas da MulherPortuguesa
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A caminho do fosso económico: não somos ricos, mas vivemos escravizados por preços muito elevados. Além do mais, a produtividade em Portugal não registou grandes progressos de há uns anos para cá. Moral da história: a palavra evolução não consta do dicionário nacional.

O fosso económico

Perplexa, é o adjectivo com o qual melhor posso caracterizar a minha reacção após ter tomado conhecimento das conclusões a que chegaram dois estudiosos da área da Economia, após realizarem um minucioso estudo sobre a condição económica do nosso país. Somos o país mais caro dos oito da zona Euro analisados por Miguel Frasquilho e Jorge Vasconcelos e Sá, os protagonistas do referido estudo.

Este elevado nível de preços parece ser explicado pelos economistas pelo facto da nossa produtividade ser excessivamente baixa, comparada com a de outros países. Para onde vão as horas extraordinárias, os fins de semana a trabalhar, ou o stress provocado pelo trabalho?

Afinal, matamo-nos a trabalhar, ou essa história do excesso de trabalho é mera ficção e qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência?

Queixam-se os funcionários, empregados, colaboradores, como lhe queiram chamar, de excesso de trabalho. Diz-se mesmo que a família e lazer é colocada em segundo plano em prol da actividade profissional, mas quando surgem ilações como esta vejo-me obrigada a pensar que alguém aqui está a pintar um quadro diferente da realidade que dá a conhecer.

A economia do país vai mal, não há motivos para grande luxos ou ostentações, e parece que vamos ter que ficar pelos últimos lugares europeus ao nível económico, isto se a Grécia não nos voltar, novamente, a ultrapassar, situação essa que já esteve bem mais longe ser irreal do hoje em dia.

“Nuestros hermanos” produzem quase o dobro daquilo que nós, aqui tão perto geograficamente mas tão longe financeiramente, conseguimos produzir. Não satisfeitos com semelhante cenário vergonhoso, e vergonhoso porque não há outra palavra que o possa qualificar de forma mais precisa, ainda apresentamos preços, em média, mais elevados do que a vizinha Espanha, embora os salários sejam, em média, mais baixos do que os do país da aficcion e das paellas, isto ainda segundo o estudo destes dois economistas.

A verdade é que cravamos no horizonte, a pouco e pouco, um futuro nada risonho, no qual somos meros observadores do progresso dos restantes países. E, pior, é querermos acompanhar os vizinhos europeus ao nível da qualidade de vida quando a nossa estrutura interna não o permite.

As mudanças têm que começar da base e não do topo para surtirem efeito! O problema desta situação é que o fazemos desde sempre, mesmo com a consciência de que no passado fomos pioneiros em muitos acontecimentos, mas que hoje somos apenas a cópia, pouco nítida e a preto e branco, daquilo que os outros países produzem. Seguimos-lhes os passos, mas sem os acompanharmos paralelamente!

Nem só através deste estudo tomámos conhecimento da situação preocupante de Portugal. António Borges, economista, alertou o país na passada semana para o facto da economia portuguesa estar em risco de perder anualmente entre 1 a 3% da sua competitividade, devido à entrada da circulação da moeda única.

Essas reduções podem ser mesmo perigosas, com tendência a acumularem-se ao longo dos anos, sem que sejam possíveis serem recuperáveis. Recordando os velhos tempos, em que a Europa possuía um centro europeu de destaque, abrindo alas para a concentração de poder económico naquele ponto, a verdade é que os tempos próximos encaminham-se precisamente para esse retorno às origens.

Todavia, Lisboa deixou de ter os atractivos ou o poder económico desses tempos em que, mesmo assim, exibíamos o que tínhamos e escondíamos a fome e a miséria atrás de grandes ostentações. No fundo, dessa época para os dia de hoje pouco ou nada mudou!

A tendência é que haja um comando central económico, protagonizado pela(s) economia(s) mais sólida(s).

Logicamente não podemos nem supor que estejamos nesse grupo, mas sim num restante núcleo que se encontra à margem dos principais lucros e rendimentos, assumindo uma posição concorrencial de fraca potência. Para invertermos esta hipotética realidade futura é necessário começarmos desde já a produzir mais, a encarar as coisas de uma forma real, a pensarmos nas consequências que este tipo de situações trará para cada um de nós.

É que quando falamos da economia nacional, estamos a falar do mim, de si, e de todas as restantes pessoas e instituições. Qualquer consequência que a economia sofra, nós seremos os primeiros a senti-la!

Por isso, é preciso modificar a consciência nacional, esforçarmo-nos por aumentar a produtividade, criar condições concorrenciais de bases sólidos e com qualidade, e assim permitir que a vaga negra que tende a instalar-se ao nosso redor seja facilmente ultrapassada.

A rivalidade entre portugueses e espanhóis já não tem motivos de ser, uma vez que a qualidade de vida dos nossos vizinhos é superior à nossa. Portanto, é natural que vamos de férias para Espanha, que compremos produtos espanhóis, que pensemos em ir estudar para lá, ou tentar a nossa sorte profissional em terras do flamenco, até porque o salário dos espanhóis é, em média, 62% mais elevado que o nosso.

Não será por isso de estranhar que os números deste estudo apresentem semelhantes discrepâncias: Portugal tem um nível de vida inferior, em 45 por cento, à média europeia, e em 44 por cento, em relação a Espanha.

A solução passa por se aumentar a produtividade, segundo os economistas realizadores deste estudo, o que significa, em linguagem popular, trabalhar e produzir muito, produzir e trabalhar muito. Só assim poderemos acompanhar os restantes países europeus que também aderiram à moeda única.

Falar de todos estes problemas, implica abordar a gestão do país por parte dos seus governantes. A ausência de soluções, as lacunas que faltam ser preenchidas com respostas qualificáveis, ou os excessos desnecessariamente cometidos, todos eles em diversos campos nacionais, como a justiça, a saúde ou educação, arrasam Portugal do ponto de vista económico e conduzem-no para uma fosso sem soluções à vista.

O desenvolvimento do país é precário, pensa-se apenas numa parcela e não num todo, consomem-se bens essenciais adicionados a um amplo leque de bens supérfluos, perfeitamente desnecessários, e desvaloriza-se aquilo que produzimos em função do que os outro produzem.

Estudos como estes vêm demonstrar que a situação de Portugal não é meramente momentânea, a não ser que construamos medidas eficazes para combater este fosso negro, e sem retorno, para o qual caminhamos.

É caso para pensarmos, e agora mais do que nunca, que “O que é Nacional é bom!”. Ou então, também pode acontecer que alcancemos o primeiro lugar na tabela dos países europeus no que diz respeito à emigração. Destino: Espanha, com um valente Olé na hora da partida!

Cronista da Mulher Portuguesa: Ana Amante

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