Amália Rodrigues, a voz e a alma do fado lisboeta

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Fadista Amália Rodrigues
Fadista Amália Rodrigues

Disse Manuel Alegre que a voz de Amália Rodrigues sabe a mar e a ocidente. Acrescento ainda que sabe a Lisboa e a Tejo, sabe a povo e tradições, tem o gosto de Portugal em cada nota que entoa.

Todos nós temos Amália na voz, porque somos portugueses, porque temos na alma tudo aquilo que Amália Rodrigues foi a primeira e única a conseguir cantar. Um fado na voz de Amália – ou antes o fado, porque só ela o canta como ele é – traz consigo a identidade de um povo com raízes profundas e longínquas, com memórias de mouros e descobridores, com o sentimento exclusivamente português que é a saudade. Traz a alma na voz, canta os sentimentos escondidos em cada poema e parece que todos os escritores escreveram apenas para que ela os cantasse.

Amália Rodrigues deixou-nos, e ficámos sem ninguém capaz de cantar esta saudade que vai permanecer. Calou-se a voz, mas a sua presença passou a fazer parte do imaginário português.

Símbolo do povo português, Amália terá uma homenagem com honras de Estado. Depois do funeral no Cemitério dos Prazeres, o corpo da fadista repousará no Mosteiro dos Jerónimos, ao lado de Camões, autor de tantos poemas que Amália cantou.

Biografia de Amália Rodrigues

Amália da Piedade Rodrigues nasceu em Lisboa, em Julho 1920, e foi criada em Lisboa desde cedo. Em 1929 cantou pela primeira vez em público, numa festa da Escola Primária que frequentava, na Tapada da Ajuda. Trabalhou desde muito cedo, como bordadeira, operária e vendedora de laranjas e flores.

Aos 15 anos desfilou na marcha de Alcântara e cantou pela primeira vez acompanhada à guitarra.
Com 19 anos estreou-se no Retiro da Severa e um ano depois era artista exclusiva e com repertório próprio no Solar da Alegria. Nesse mesmo ano, Amália torna-se a principal atracção da revista “Ora vai tu”, no Teatro Maria Vitória, a primeira de uma série de participações no teatro de revista.

Em 1943 actua pela primeira vez no estrangeiro, em Madrid. Várias vezes recordou esta viagem pela oportunidade de cantar canções espanholas e flamengo.

Em 1944, viaja para o Brasil para actuar no Casino Copacabana. O sucesso foi tal que, em vez das seis semanas previstas, Amália actuou durante três meses. Foi também neste que celebrizou “O Fado do Ciúme” e “Ai Mouraria”, ao lado de Hermínia Silva na opereta “Rosa Cantadeira”
primeiro disco de Amália Rodrigues, “Perseguição / As penas”, de 78 rotações, foi gravado no Brasil em Outubro de 1945.

Em 1947, aos 27 anos de idade, Amália estreia-se no cinema, no filme de Armando Miranda, “Capas Negras”, que bateu todos os recordes de exibição. Ainda neste ano estreia o seu segundo filme, “Fado

História de uma Cantadeira” – Em sequência deste trabalho, recebe em 1948 o prémio no CNI para melhor actriz de cinema.

No ano seguinte, aos 29 anos de idade, cantou pela primeira vez em Paris, no Chez Carrer, e em Londres, no Ritz. – Em 1950 actua nos espectáculos do Plano Marshall pela Europa como única intérprete ligeira num elenco clássico.

Em 1951 grava pela primeira vez em Portugal para a editora Melodia.
Actuou em Nova Iorque, em Hollywood, na ex-União Soviética, no Japão e foi em 1954 que a convidaram para um pequeno papel no filme francês “Os Amantes do Tejo”. Neste filme Amália interpreta “Canção do Mar” e “Barco Negro”, duas músicas que correram mundo arrastadas pelo sucesso do filme.

Aos 38 anos de idade estreia-se na RTP, no papel principal da peça “O Céu da Minha Rua”. Apesar da longa e notável carreira, apenas em 1985, com 65 anos de idade, Amália dá o primeiro grande concerto a solo no Coliseu dos Recreios em Lisboa.

Editou nesse mesmo ano o álbum duplo “O Melhor de Amália – Estranha Forma de Vida”, trabalho que permaneceu oito meses no top, com vendas acima dos cem mil exemplares. Seguiu-se o segundo álbum de compilações, “O Melhor de Amália volume II Tudo Isto é Fado”.

Em 1987, é publicada a biografia oficial de Amália.

Em 1995 grava o último álbum, “Pela Primeira Vez”, e em 1997 é editado “Segredo”, um álbum de gravações inéditas.

A 6 de Outubro de 1999, Amália morre na sua casa em Lisboa, recebendo honras de Estado por parte do governo e do povo português.

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