Requiem da escola

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Jovens e a escola
Jovens e a escola

A manhã ia a meio e o estômago reclamava das quase quatro horas de inactividade. Não apetecia muito, mas era preciso descer os três pisos ou pelas escadas ou pelas rampas, pejadas de jovens, a lembrar os trabalhadores a saírem das fábricas no filme de Chaplin, e respirar fundo para enfrentar a azáfama do exíguo bar sempre atafulhado de gente, cheiros e ruídos.

Aproveitava-se também para dar uma olhada na sala de professores, irrespirável e mal cheirosa, impregnada de tabaco – algo ilegal a que ninguém punha cobro – para, de fugida, verificar se havia alguma informação dos serviços administrativos ou de carácter pedagógico, colocada na gaveta individual.

Como faltavam ainda mais 3 horas para o final das aulas da manhã, era conveniente passar pelos WC – apenas dois para mais de uma centena de professores – instalados unicamente no res-do-chão (!!). (E os dos alunos na cave!!??) Que estranho edifício! Tanta área desperdiçada. Tão pouco funcional!

O intervalo era de vinte minutos mas tudo tinha de se realizar em acelerado, pois a nova subida das rampas, aos magotes, realiza-se à lenta velocidade dos pouco motivados pés das centenas de alunos compactados no frio, serpenteado e ascendente corredor de betão, não permitindo ultrapassagens senão após um toque de “posso?”, “dás licença?” e sem que a vontade de alterar a atitude de “que maçada, estou bem assim, arranje-se!” facilitasse a chegada à última sala do último piso nos cinco minutos esperados. “Olá, Olá”. Os olás apressados às colegas, igualmente mecanizadas neste processo de luta contra a estridente campainha, eram o único elo de integração no grande grupo, numa despersonalizada e desconjuntada compleição física de um edifício decadente do estado-novo, roto e enferrujado como se o frio também fizesse questão de tirar o seu diploma.

E em assiduidade a avaliação seria máxima. “Há-de ver, no inverno temos de trazer dois pares de calças e muita roupa, porque entra o frio por todo o lado e os alunos teimam, por brincadeira, (!) em abrir as janelas e as bandeiras nem fecham!” alertam sabiamente as funcionárias, encolhidas nos seus cachecóis e meias grossas de lã, debaixo das batas cor-de-rosa às risquinhas. Como podem os ossos dos envelhecidos e maltratados agentes educativos aguentar estas condições? (Ah, os ar-condicionados dos serviços centrais e outros mordomias!!!)

“Olá! Então já vieram de vez?”

“Sim, já entregamos a chave. Deu-me um ataque de choro. Custou-me tanto sair de vez.”

“A última vez que lá entrei foi em Agosto e já era uma dor de alma. Dou uma volta para nem passar por lá perto.”

“Agora estavamos já sem água. De noite era já o paraíso para a prostituição. Pudera sem luz e isolado! E agora é só esperar que os sem-abrigo tomem conta do espaço. Ou os drogados. Ou os estaleiros de qualquer construtor civil. Ou os emigrantes desempregados. Pelo menos não ficam ao relento.”
“O que irão fazer com aquele espaço?”

“Sabe-se lá. Nada. Não têm dinheiro nem para mandar cantar um cego!”

“Lá ter têm, mas só para o lhes interessa. Destruir o que funciona, lá isso sabem!”

“Bem nos enganam”

Era um local calmo, belo, com jardins cuidados. Até tinha figueiras cheias de figos pelo fim do verão. E uma bananeira – com cachos de bananas verdadeiras, a sério, mesmo de comer – logo à entrada do portão, bem guardadas pelo simpático, eficiente e imensamente prestável porteiro da manhã. E flores e árvores de todos os tamanhos. E limpeza. E sem fumo nas salas. Os viciados vinham para o ar livre à porta da sala, respeitando os colegas. Era tranquilo e, ao toque da música, a saída directa para o jardim, relaxava o espírito e recuperavam a energia os alunos e professores. Dois passos e todos se juntavam na espaçosa sala de convívio onde o cafézinho fumegava e aquecia.

Era de madeira. Era de pavilhões pré-frabicados. Era provisória definitiva, mas todos os anos se alindava, não havia buracos, as janelas vedavam, as portas nem precisavam de chaves, os alunos ficavam junto ou dentro das salas, conviviam por todo o espaço em pequenos grupos como num permanente “garden-party”. Não havia correntes de ar. Havia bom ar por todo o lado!

Respirava-se sossego. Esta era a verdadeira chave do sucesso daquela escola na flor dos seus vinte anos. Local de boa acessibilidade. Isolada de tentações – cafés, salas de jogos, montras, cinemas e quejandos – rodeada de alunos mais velhos no final dos seus percursos académicos. Respirava-se responsabilidade. Era o 1º passo para o superior. E nem havia praxes aos caloiros.

As novas camadas de alunos, irrequietos e irreverentes como todos os do 10º ano, provenientes de todas as camadas sociais (ao contrário do que se fazia constar) após os “alegres, sem-cuidados, sempre a passar,” anos do básico, pelo Natal tinham já assimilado comportamentos adequados e pelo Carnaval os hábitos de trabalho manifestavam-se. Respirava-se seriedade.

As avaliações iam num crescendo e no 11º ano os resultados agradavam a todos. A escola mantinha-se firme nas dez primeiras das oficiais no ranking, qualquer que fosse o critério imaginado pela hierarquia. Respirava-se sucesso.

Foi o sucesso que a perdeu? Foi o sucesso que a perdeu!!

A inveja que grassa nesta infeliz terra (ainda será país?), quiçá a ignorância da realidade (ou incompetência?) de quem toma decisões, que diz uma coisa e faz outra, a provável jogada de interesses ocultos (antes destruir o outro para salvar o meu quinhão, mesmo que o meu não tenha condições?), quem sabe?

Manda quem pode, soe dizer-se. E nesta terra, onde se vão cruzando os braços (será esse o objectivo?), uma escola de sucesso, uma escola que deveria servir de modelo, por conjugar, por ordem decrescente de importância, um ambiente acolhedor, atmosfera de trabalho, sossego – sem as gritarias dos mais novos – bons resultados escolares, corpo docente relativamente estável, era para se extinguir?

Porque teimará a hierarquia em ir a reboque de lobbies e estragar o sistema, eliminando as escolas apenas destinadas ao secundário (responsáveis pela preparação para um estudo mais autónomo que se exige na universidade) se resultam, misturando níveis e faixas etárias como água e azeite, dando o dito por não dito sem sabor nem maré, desleixando a exigência, renegando a qualidade pela ditadura das percentagens, insistindo no lúdico em detrimento da responsabilização, do desafio e do rigor?

Passando o indivíduo mais de 20 anos num forróbódó como poderá vir a transformar-se, num trabalhador qualificado? Por obra e graça do espírito santo? O papel – obtido de qualquer maneira – faz o milagre? Em 20 anos já deu para ver que não!

A extinção da Escola Secundária da Cidade Universitária não se terá ficado a dever a restrições económicas, nem ao facto de ser de madeira pré-fabricada, nem de ter poucos alunos (pelo contrário, eram às centenas os que queriam entrar e eram impedidos pela malha apertada da rede escolar do M.E), nem por serem os terrenos necessários para o que quer que fosse, nem por problemas de qualquer espécie. (Compare-se com a irmã gémea dos Olivais. Resistindo, por lá continua … felizmente!)

E assim ficaram (e ficarão) inúmeras famílias privadas de colocarem os filhos numa escola em que confiavam, os alunos privados de um ensino de qualidade em ambiente propício, o ME privado de mais uma escola oficial no ranking, o país privado de uma escola de sucesso. Beneficiam os sem-abrigo, os toxico-dependentes, as redes de prostitução … Valha-nos ao menos isso!!! O controle do déficit ficou a lucrar.

Ficou ??!!

Manuela Freitas

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