Vícios e virtudes de Helder Macedo

1964
Helder Macedo
Helder Macedo

Um dos prazeres de escrever ficção é que se escreve sobre aquilo que não se é. Pelo menos eu escrevo sobre aquilo que não sou.’ O autor de Vícios e Virtudes, Helder Macedo, falou acerca de si e da sua última obra com a Mulher Portuguesa.

Uma tarde amena de Inverno e uma sala de hotel foram os ingredientes para uma conversa agradável acerca do autor e da obra. Helder Macedo deixa fluir as palavras, como bom romancista que é, enredando o leitor e ouvinte no seu contexto.

Acerca do seu último livro, tece vários comentários: ‘O próprio título tem uma conotação irónica, na medida em que muitas vezes é extremamente difícil distinguir o vício da virtude.

Vícios e virtudes

O livro está centrado numa personagem feminina, contemporânea, considerada algo misteriosa por várias pessoas que lidam com ela, e que faz um jogo aparentemente perverso, que é o de tentar projectar-se como personagem para pessoas e escritores que julgam que estão a inventá-la.’

‘Vícios e Virtudes’ tem mesmo uma forte temática feminina, ‘porque durante vários séculos as mulheres faziam um jogo de serem inventadas, ocultavam-se, fingiam ser aquilo que, muitas das vezes, era determinado pelos homens, o pai, o marido, a lei, as instituições.’ A heroina, Joana, inventa-se perante quem a escuta como uma personagem histórica, mais propriamente a sua homónima, Joana de Áustria, num jogo complexo de verdades e mentiras.

A linguagem é um dos pontos fortes de qualquer obra e ‘Vícios e Virtudes’ não foge à regra, utilizando termos no calão actual. À vista salta um capítulo, onde se publica um diário, com as emendas.

Quisemos saber porquê: ‘O comentário que é feito pela pessoa que apresenta esse diário é que aquilo que a gente corta e não diz, pode ser tão importante como aquilo que dizemos e portanto ficam essas alternativas marcadas com essa possibilidade.’

Quem ler o livro não pode deixar de se admirar com a personagem de Joana, que nas palavras do autor ‘é uma mulher terrível, e que me mete mesmo um pouco de medo.’

Mas é normal um autor deixar-se levar pelas suas personagens?

‘Recuso a postura tradicional do autor omnisciente. A certa altura as personagens adquirem uma autonomia própria,. Há uma certa liberdade na escrita de um romance nas primeiras sessenta páginas, em que se pode mais ou menos decidir o que vai acontecer. A partir de determinada altura, se o romance está a correr bem, as personagens adquirem um peso e uma identidade própria e o autor já não pode decidir.

A menos que esteja a trair a sua veracidade. O que quis representar na escrita deste livro é o diálogo do autor com as personagens. A certa altura quase que tomam decisões que vão contra a decisão latente do próprio autor.’ E remata sorridente: ‘Meto-me em vidas em que nunca estive.’

Mas é fácil para um homem escrever inventar-se como mulher? A resposta surge rápida: ‘Os leitores o dirão. Um dos prazeres de escrever ficção é que se escreve sobre aquilo que não se é, pelo menos eu escrevo sobre aquilo que não sou, e isso cria uma procura de outras identidades.

E como tal, para mim, sendo um homem, mas sendo um homem que gosta do feminino enquanto homem, o grande mistério, a grande pesquisa, acontece no feminino, não é de forma nenhuma que eu encarne uma personagem feminina, mas que eu demande, procure e queira encontrar, precisamente o não eu.’

Mas a história é parte integrante da vida de Helder Macedo, licenciado em Literatura e História, que iniciou a sua carreira em 1957 com o livro de poesia ‘Vesperal’, seguido de ‘Viagem de Inverno’ e nessa área continuou por algum tempo. Quisemos saber como é passar da poesia para a prosa, com as obras ‘Partes de África’, ‘Pedro e Paula’ e ‘Vícios e Virtudes’.

‘Comecei por escrever poesia, mas agora já não. Este é o meu terceiro romance publicado e o quarto que escrevi, porque aquele que escrevi na década de 60 não pôde ser publicado devido à censura, de modo que já me considero um romancista.’

Em todas as suas obras, a mulher tem sempre um papel importante, em especial no romance ‘Pedro e Paula’ e de que ‘Vícios e Virtudes’ não é excepção.

‘O feminino é eterno mas o ‘eterno feminino’ não existe, porque muda. Mas ‘eterno feminino’ é um termo perigoso inventado pelos homens para significar que as mulheres não são conhecíveis e que são uns seres mais ou menos indecifráveis.

Não é verdade, as mulheres são conhecíveis, conhecem-se a si próprias.’ E ironiza: ‘O facto de escaparem muitas coisas, acontece a todos nós, que escapamos uns aos outros, senão matávamo-nos entre nós, porque a forma de fixar uma relação é a morte e então já não vale a pena porque já cá não estávamos para a gozar.’

Como não podia deixar de ser, quisemos saber como um homem encara o papel da mulher em Portugal . ‘O que acho é que a grande e profunda modificação que aconteceu no nosso país está a acontecer no feminino. Em termos estatísticos é o país europeu onde há percentagem mais alta de estudantes universitárias mulheres, não só na área das humanidades como da ciência e das tecnologias.

Cada vez mais os cargos públicos de direcção estão a ser ocupados por mulheres. Na política são menos mas isso se calhar é a sensatez das mulheres que acham que não vale a pena apostar ali.

Há uma transformação extraordinária e que é muito diferente dos resultados mais evidentes do feminismo nórdico e anglo-saxónico, em que havia uma espécie de projecção da imagem usurpada do masculino. O que acho fascinante é que há de facto uma afirmação de força e independência, de igualdade no sentido de acesso, comportamento, etc. Mas enquanto mulheres e não usurpando a imagens que não são imagens do feminino.

Portugal é um país totalmente diferente e tenho idade suficiente para me lembrar das mulheres sacrificadas dos anos 50, do tempo em que as senhoras não podiam sair do país sem autorização do pai e do marido.’

Helder Macedo

Actualmente Helder Macedo vive em Londres mas visita inúmeras vezes Lisboa, fazendo questão de publicar os seus livros em Portugal e no Brasil. A saída do nosso país deveu-se a questões políticas, durante o mandato de Salazar.

Em Inglaterra manteve a actividade política activa ‘tanto quanto é possível no exílio e depois do 25 de Abril voltei a Portugal e tive o privilégio de trabalhar como Secretário de Estado da Cultura da única mulher primeira-ministra portuguesa, Maria de Lurdes Pintassilgo, pessoa que profundamente admiro.’

A carreira de professor académico mantém-se em Londres mas a paixão por Portugal continua. ‘De Londres a Lisboa é o mesmo tempo que daqui para o Porto e essa distância, se calhar, até acentua a minha portugalidade e o meu desejo de escrever em português.’

Um autor de que fica sempre o desejo de conhecer ainda mais.

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