Odete Santos, uma vida na política

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Odete Santos
Odete Santos

É uma das vozes que mais alto se ergue em defesa dos direitos das mulheres, e das que há mais tempo caminha pelos corredores da Assembleia da República. A Mulher Portuguesa foi conhecer um pouco melhor a deputada Odete Santos.

Maria Odete dos Santos nasceu em Pega, uma pequena aldeia da Beira Alta, perto da Guarda, no dia 26 de Abril de 1941. Setúbal surgiu como opção dos pais, professores primários, que optaram por leccionar numa cidade com liceu, de modo a não se separarem da única filha. “Vim para esta cidade com dez anos e gosto imenso dela, mas continuo a gostar muito da minha aldeia”.

A escolha para os estudos recaiu na advocacia: ” Estava numa turma muito rebelde andava sempre em discussões nas aulas, onde fazia grandes discursos e debates. Por esse motivo devo ter-me convencido que o Direito era interessante. Mas fiquei desiludida, era só decorar termos, uma coisa horrorosa, não foi o curso que esperava. Apesar de que a actividade em si tivesse sido interessante, e comecei a advogar em 1968″, mas confessa: “Se fosse hoje já não o teria feito. Foi uma coisa de adolescente, ainda não estava muito madura, e tive que optar com apenas 15 anos. Além disso, a advocacia tem-se degradado muito e já não me dá muito prazer”.

Por esse motivo e para se dedicar a outros interesses, Odete Santos está a abandonar a carreira de advogada. “Cheguei a uma altura em que não era possível responder a tudo. A idade vai pesando, estou apenas a acabar os processos em curso, mas não estou a aceitar mais nada”.

Também na função porque é mais conhecida, como deputada da bancada parlamentar do Partido Comunista, demonstra algum cansaço: “Há medida que se vai tendo mais idade, vão surgindo mais dificuldades. Quando vim para a assembleia tinha 39 anos, ainda podia andar a correr muito de um lado para o outro, agora é completamente impossível.”

O tempo é ainda repartido entre a Assembleia Municipal de Setúbal, onde se encontra desde 1979, a Comissão Concelhia de Setúbal e a Direcção da Organização Regional de Setúbal do PCP.

Claro que a conversa teria de recair no teatro, e o gosto por esta arte reflectiu-se nos gestos mais animados com que falou da sua experiência. “Gosto de diversificar a minha actividade, não sou capaz de ficar sempre a fazer o mesmo.” E explica: ” O teatro é como um tubo de escape. Há uma acumulação de tensão muito grande, e na Assembleia, então é enorme, por isso o teatro serve para acalmar os nervos, porque enquanto se anda a interpretar uma personagem e se muda para a pele dessa personagem, os nervos vão desaparecendo. Sempre fiz um pouco de teatro amador e declamei poesia em actividades culturais, contudo sem qualquer carácter de regularidade.”

O convite para a peça “Quem tem medo de Virgínia Wolf” veio pela mão do director do Teatro Amador de Setúbal (TAS). “Já tinha trabalhado com o TAS em 1976. A companhia está na cidade desde a altura em que eu era vereadora da Comissão Administrativa do Pelouro da Cultura e há um elo de ligação entre nós. Aceitei, embora a certa altura começasse a pôr em dúvida se seria capaz, porque a peça é muito complicada e tive pouco tempo para ensaiar: apenas um mês e meio, no qual ainda tive de me deslocar numa delegação a Roma e ao Brasil tendo também muito trabalho na Assembleia. Foi duro e dormi poucas horas, mas foi muito satisfatório”.

Um assunto que lhe suscita algumas apreensões é o papel das mulheres em Portugal. “Um relatório de Maio, do Instituto Nacional de Estatística, aponta que a taxa de analfabetismo atinge também as mulheres jovens, num número em dobro ao dos homens. Embora a taxa de actividade fora de casa tenha aumentado, isto apenas reflecte a necessidade que leva as mulheres a aceitarem trabalho não qualificado, com salários muito baixos.

Apesar disso, uma percentagem grande da população feminina já chega ao ensino superior, o que prova que as mulheres não são mentecaptas. A juntar a este panorama, temos o número de mães adolescentes que têm vindo a aumentar.”

Em relação à situação da mulher na política Odete Santos aponta que “o pós 25 de Abril foi uma das épocas que considero das mais ricas, porque havia uma grande participação de toda a gente, não como hoje, em que se viraram as costas à política. As quotas de participação feminina não iriam resolver nada, pois seriam apenas uma aparência, e não a tradução da realidade.”

Nestas questões femininas não poderia ficar de parte a questão do aborto defendida pelo PCP. Odete Santos considera que as mulheres se têm mobilizado pouco em torno da questão: “As técnicas têm melhorado e hoje já é possível levar a cabo um aborto em condições seguras, mesmo que clandestino. O que se coloca em toda esta discussão é a teimosia da sociedade em manter esta proibição, apesar de toda a gente saber que os abortos se continuam a fazer.

É aqui que se coloca a questão relativamente à posição feminina, construindo à sua volta uma barreira biológica, de forma a manter a todo o custo a obrigação de dar à luz mesmo contra vontade. É por isso que acho importante que seja tudo resolvido, porque mesmo com mais segurança, ainda há problemas de pessoas que sofrem traumatismos e que ficam inférteis”.

Para uma revista digital, como a nossa, é importante saber a opinião em relação às novas tecnologias. “Sou uma grande fã dos computadores e sobretudo da Internet, e gasto algum dinheiro nisso. A Internet é um instrumento fundamental de consulta e as novas tecnologias são essenciais para a evolução, abrindo portas a novas perspectivas de trabalho, como é o caso do tele-trabalho. Antes vinha para a Assembleia porque aqui é que tinha a informação que precisava, hoje fico em casa e procuro pela Internet. O que é pena é que é ainda um número pequeno de pessoas que têm acesso”.

E depois da política? A resposta surge rápida: “A reforma!”

E Odete Santos explica: “Não me posso desligar completamente da política, porque esta nunca se deixa. Mas quero descansar, ler muito, dedicar-me à escrita e o teatro é uma das actividades que está de reserva”.

Em teatro escolhe alguns autores: Brest, Gil Vicente, Shakespeare, Moliére, Artur Miller “e os autores da chamada geração dos “hungry young man”, a geração da minha juventude”. Na literatura prefere autores mais modernos com destaque para os portugueses Saramago e uma paixão especial por Eça de Queiroz. De fora não ficam Montalban, Gabriel Garcia Marques e Isabel Allende, embora confesse que depois da entrevista se irá lembrar de outros. Uma nota apenas para a falta de poetas modernos com a força da geração de José Gomes Ferreira, António Chico Leal, Manuel da Fonseca, Rafael Albertini e Orca.

A luta, essa vai continuar sempre para Odete Santos que nunca teve medo de dizer o que pensava, mesmo quando isso incomodava os poderes vigentes.

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