Fafá de Belém, um pássaro sonhador

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Fafá de Belém
Fafá de Belém

A Mulher Portuguesa foi encontrar Fafá de Belém num hotel de Lisboa. Conversámos sobre a sua carreira, vida e sonhos, numa conversa descontraída e divertida. Fafá é, sem dúvida, uma mulher que gosta de ser e estar sempre alegre. ‘Só gosto de cantar’. Poderia ser assim que Fafá de Belém se definiria e é assim que quem a conhece pelo seu trabalho pode pensar. Mas Maria de Fátima Moura Palha de Figueiredo é também uma mulher apaixonada pela vida.

A Mulher Portuguesa foi encontrá-la num hotel de Lisboa e conversamos, entre outras coisas, da sua carreira, da sua vida e dos seus sonhos, tudo sempre acompanhado por muitos risos, porque acima de tudo, Fafá é uma mulher que gosta de ser e estar divertida.

Primeiro que tudo quisemos saber o que acha esta brasileira apaixonada por Portugal, onde se estreou em 1986 no Casino do Estoril, das diferenças entre os dois países: ‘É mais fácil falar das semelhanças. A igualdade entre os dois países começa no sangue, que é todo misturado, um tira uma gota que pinga noutro. O sentido de humor é a outra coisa igual, tanto os brasileiros como os portugueses têm o mesmo sentido de ironia. Eu vivo tão entre um e outro que quando acordo nunca sei onde estou, porque tudo é tão igual… A minha relação maior é com as pessoas, com a sua emoção e aí não tem muita diferença.’

A carreira de Fafá no mundo do espectáculo teve inicio com uma representação no musical ‘Tem muita goma no meu Tacacá’, levado à cena no Teatro da Paz e em que participou com apenas 17 anos de idade. Mas a sua estreia nacional deu-se com a banda sonora da memorável telenovela ‘Gabriela, Cravo e Canela’.

Desde pequena que Fafá cantava, para si e para os amigos. ‘Na minha casa, um tocava o violão, outro cantava, outro pintava e a porta estava sempre aberta para as pessoas inteligentes, sempre teve discussão sobre música e política, era uma confusão, o bicho pegava e todo o mundo dava opinião, era uma democracia. Com essa democracia aprendi a conviver desde criança, por isso quando falo de música ou de autores, quero sempre ouvir e nunca me deixo levar apenas pela opinião de duas ou três pessoas.’

O seu primeiro sucesso musical foi com ‘Filho da Bahia’, no ano de 1975, a que se seguiu o álbum ‘Tamba-Tajá’, num estilo romântico que a caracterizou. Mas Fafá não quis ficar por aqui e cantou todo o género de música, do rock à música mais tradicional, boleros, etc. ‘Gosto de toda a boa música. Sou uma cantora essencialmente romântica, mas com uma relação musical muito ampla, e então ouço um pouco de tudo. Gosto de cantar e tocar. Desde pequena, quando o dia não corria bem, ou o avião não saia, o pneu furava, eu ia para minha casa ou para casa do meu tio para tocar. A minha relação com a música é muito mais profunda do que qualquer outra coisa.’

Um dos episódios que mais a marcou na sua carreira foi a campanha ‘Diretas Já’, um movimento de redemocratização do país em que participaram diversos artistas brasileiros e que chegou a acarretar-lhe problemas com a justiça por causa de uma versão cantada por si do hino nacional.

‘Sou um ser político e tenho consciência disso. Gosto dessa consciência política do ser e gosto de saber levar pela vida e gosto de procurar saber para onde é que ela anda. Amo todos os prazeres da vida, não olho nunca para o lado amargo. Sinto-me privilegiada, tenho uma filha linda, trabalho no que quero, tenho bons amigos, o resto vem depois.’

Neta de uma portuguesa, tem também no sangue o fado e não quis deixar de passar pela experiência de o cantar. ‘Desde que recordo que em minha casa se ouvia Francisco José. Sempre vivi com o fado e quando fui convidada para o cantar, achei que era muito fácil, mas não é. E reaprendi junto a dois grandes mestres, o mestre António Chaínho e o mestre Mario Martins, que foram dois grandes professores numa releitura e numa leitura de um outro foco da grande canção portuguesa.

O fado para mim é paixão, é a leitura que eu tenho da paixão e do amor, o meu disco de fado teve esse diferencial porque no Brasil se vê o amor como o amar cada vez mais, e no fado português é mais o destino trágico, o amar para nunca mais amar. Eu vejo o amor sempre como no limite, mas (risos) amanhã, se abro a janela, é tudo igual e o Sol nasce de novo e à noite sempre vem um novo amanhã.’

Mas não é só o fado que agrada a Fafá, outros cantores portugueses também fazem parte do seu rol de amigos e passou pela experiência de cantar com Dulce Pontes, ‘Conheço a Dulce desde o primeiro disco e me lembro dela desde o Casino do Estoril, tal como da Teresa Maiuko. Acho ela uma grande artista porque não tem vedetismo e tem uma voz maravilhosa, é artista no sentido lato.’ Mas a experiência de cantar em português ficaria por aqui?

‘Não tem fim a lista dos artistas portugueses com quem gostava de cantar. Adorava cantar com o Gonzo, adoro a voz dele, com a Teresa Salgueiro, com o Nuno Guerreiro, com o Olavo Bilac, com o Rui Reininho e quem mais você quiser… e sempre com nosso mestre António Chaínho.’

É importante cantar com pessoas de quem se gosta, mas também há experiências que não se esquecem em relação a quem ouve. E cantar ‘Avé Maria’ para o Papa João Paulo II, no estádio do Maracanã, em 1997 foi de certeza uma delas. ‘Foi muito emocionante, sou uma pessoa de fé, não sou religiosa no sentido de carola mas acredito em Deus e admiro profundamente o Papa, porque ele tem sido um grande homem, um grande ser político deste século. Todos os muros que ele derrubou, as barreiras que atravessou fazem dele um homem político raro e por ter sido escolhida entre tantos para representar o meu país face ao Papa fiquei muito honrada.’

É inevitável falar do papel da mulher nos dias que correm e pedimos a opinião a Fafá: ‘O papel da mulher no mundo é ela ter noção do seu papel principal e de seu valor, da sua força. Nós somos o que toca tudo para a frente, às vezes a gente se esconde atrás de uma fragilidade mas temos a nossa própria força. Essa coisa de mulher disputar espaço com mulher é ridículo, unidas tomaremos o mundo (risos).’

E voltamos à mulher Fafá, questionando-a sobre o que mais gosta de fazer e a resposta pronta faz surgir mais risadas: ‘Cantar! E gosto de viver tranquilamente, de ler, de andar, sou um pessoa comum, gosto do que todo o mundo gosta, estar com os amigos, não sou muito de ir nas discotecas, sou muito de casa, adoro cozinhar, essas coisas comuns. Não me considero uma vedeta, sou uma mulher que gosta de cantar e faço de o que todas as mulheres fazem e gosto de fazer isso.’

E como todas as mulheres e homens do planeta, também a Fafá tem um sonho: ‘Fazer um musical infantil. Desde que vi o filme ‘Pés de anjo’ com a Catherine Deneuve, tinha uns 13 anos, pensei em fazer uma história infantil, porque acho muito interessante você mexer com a fantasia da criança, com a sua realidade e a irrealidade.’

E para terminar, porque o dia já vai longo, pedimos para se definir em três palavras:

‘Franqueza, talento e generosidade’ a que se segue um coro de gargalhadas e mais dois adjectivos de bónus: ‘modéstia e despretensão’.

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