Entrevista com a escritora Luísa Beltrão

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Luísa Beltrão
Luísa Beltrão

Recebe-nos numa manhã soalheira na sua vivenda, rodeada por um paradisíaco sossego. Jovial e simples, a conversa com Luísa Beltrão desenrola-se facilmente, com a arte da escrita reflectida no discurso…

Luísa Beltrão

Começou a escrever aos cinquenta anos porque o tempo teve de o ocupar na educação dos sete filhos. Como revela à Mulher Portuguesa ‘a experiência como mãe é enriquecedora, leva-nos a colocar tudo em causa e a uma posição de diálogo constante com o presente. Obriga-nos a não nos sentarmos em cima das certezas e procurar sempre resolver problemas”.

Foi difícil criar sete filhos? “Foi um processo contínuo, numa época de revolução, em que tivemos de reflectir sobre os valores que valiam a pena transmitir e isso foi muito duro porque os pais perderam todas as suas referencias”.

De professora de psicologia e filosofia, áreas escolhidas na universidade por quem desejava seguir medicina e pediatria mas que não gostava de certas áreas de ciências, a escrita ocupa-lhe agora muito do seu tempo, em parte ainda dedicado ao ensino.

Nesta fase da sua vida Luisa Beltrão invoca uma frase de Augustina Bessa-Luís A mulher tem o tempo da procriação e depois tem o tempo da criação. ‘Essa tese adapta-se à minha vida. Tive uma época da procriação, de educar os meus filhos e depois da tarefa estar concluída, fiquei mais liberta para a criação literária.

O currículo de cada um deve integrar aspectos que não são inteiramente profissionais. No meu caso, ter educado sete filhos deu-me conhecimentos e experiências muito grandes, não só como professora, mas como escritora e ser humano, aspectos que não consigo separar.’

Actualmente as estantes das livrarias ostentam seis obras com o seu nome:

  • Todos vulneráveis, a sua incursão pelo mundo do romance policial,
  • Desafio da Cidadania, em colaboração com Helena Nascimento
  • Os Pioneiros, a obra mais conhecida de todas,
  • Os Impetuosos,
  • Os Bem-aventurados
  • Os Mal Amados.

‘Escrever livros tem a ver com a minha área de mãe e educadora e a tetralogia tem uma função pedagógica. Depois do 25 de Abril as novas gerações passaram por um corte muito grande, devido a uma revolução de costumes a todos os níveis.

A evolução social implica qualquer coisa que vem detrás, porque nada acontece que não esteja ligado ao passado que se projecta no futuro. Nessa linha creio que as novas gerações perderam um pouco das suas referências e estes livros foram uma reflexão em termos de história recente, onde teve início a nova mentalidade da democracia.’

A personagem principal que atravessa gerações é inspirada na Tia Graça, tia-avó da autora ‘uma impressionante enciclopédia de história que atravessou oito gerações e que dizia ser uma assistente da vida porque nunca casou.

Foi muito a co-autora dos romances em termos de informações, conhecimentos e histórias. Depois há outras figuras masculinas, e há quem diga subalternizo um pouco estas, mas não concordo.’

Como professora mantém uma boa relação com os alunos, ‘a minha casa foi sempre um ponto de encontro de jovens, o que me deu uma forma diferente de encarar o seu mundo. Fala-se muito da juventude mas há demasiadas exigências e depois faltam as ferramentas para os ajudar a singrar no mundo.

A adolescência é uma fonte inesgotável, e não concordo com a história da geração-rasca. Há grandes problemas de perda de valores mas a responsabilidade cabe aos educadores.’

É nessa área de educação que se integra o mais recente livro da autora, O Desafio da Cidadania, a sua primeira experiência sobre o assunto da educação, em co-autoria com Helena Nascimento. ‘Meti-me de cabeça porque se tratou de um desafio e se há algo que adoro é o risco.

educação é um pilar da sociedade e enquanto a sociedade não encarar as coisas desse modo, não pode haver evolução. O grande público não tem consciência do que realmente se está a passar nas escolas e do divórcio entre a teoria e a prática. Implementam-se reformas mas depois não há condições para as cumprir e colocar em prática.’

Ciosa da sua vida particular e de um certo anonimato, garante que em nome deste livro se vai colocar em campo para o divulgar o mais possível: ‘de forma a mexer e alertar as pessoas, porque se pensa sempre que é o sistema, uma entidade sem rosto, que tem a responsabilidade, mas cada um de nós tem o seu papel a cumprir e a noção que se não o fizer as coisas não podem andar para a frente. Acomodam-se, dizem mal e há um enorme fatalismo que impede a mudança.

Há alguns dias fez-me muita pena ouvir uma aluna minha de 16 anos dizer ‘não vale a pena lutar porque nós tentamos e depois não muda nada’. Isto não pode ser encarado desta forma’.

A proposta de escrever um livro com Helena Nascimento surgiu de um acaso, quando ambas frequentaram um curso de formação acerca de cidadania. ‘Trabalhamos como umas loucas, porque a Editora Presença precisava do livro pronto antes do início do ano lectivo. Poderia ter sido um trabalho melhor, mais reflectido mas foi o que saiu, um pouco à portuguesa.’

Voltando ao seu papel de mãe de família, é preciso saber como esta encarou a incursão pelo mundo literário. ‘Ficaram encantados. A minha própria vida é feita de capítulos, com muitos problemas, tive de dar aulas e só depois dos meus filhos casarem é que comecei a escrever.

É evidente que perderam um pouquinho da mãe, porque a escrita ocupa-me muito, até de uma forma obsessiva porque me fecho ao mundo. Já estão habituados e têm essa relação um bocado ambivalente, porque sabem que a mãe está sempre noutra.’

Agora está num momento de pausa literária mas promete continuar a dar prazer aos seus leitores. As aulas também estão na sua agenda ‘não deixo o ensino de modo nenhum porque é uma fonte de enriquecimento e ainda tenho muito para escrever, mas não vou ficar apenas por um género’. E antes de terminar a conversa, quisemos que Luisa Beltrão deixa-se uma mensagem aos nossos leitores.

‘Conversem, de forma a que exista abertura de parte a parte, porque há muita falta de comunicação e o diálogo deve ser a base da confiança. Os pais tem a aprender com os jovens e vice-versa. O acto de educar é interactivo, é uma comunicação bilateral que tem de se ir sempre aprendendo.’

Resta ficar à espera de futuros trabalhos e enquanto isso, compreender a educação e os mais jovens com a ajuda da obra referida.

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