Entrevista com a estilista Fátima Lopes á Mulher Portuguesa

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Entrevista com a estilista Fátima Lopes á Mulher Portuguesa
Entrevista com a estilista Fátima Lopes á Mulher Portuguesa

A estilista Fátima Lopes é  portuguesa que mais longe conseguiu chegar no mundo da moda internacional. Com lojas em Portugal e em França, prepara-se agora para expandir a sua marca para os Estados Unidos.

A estilista Fátima Lopes

Fátima Lopes conversou com a Mulher Portuguesa no seu espaço preferido, no Bairro Alto, completamente desenhado por si, o único lugar no mundo onde se sente verdadeiramente em casa.

O bar e a loja funcionam no mesmo edifício. Entra-se para o bar, decorado num estilo futurista, uma mistura de cinzento, azul e roxo, com bancos altos e manequins envergando as roupas da actual colecção.

A loja é um espaço amplo, onde podemos ver à vontade sem que ninguém ande à nossa volta a perguntar o que queremos ou se pode ajudar em algo…

A estilista Fátima Lopes com quem conversei na sala de reuniões nada tinha a ver com a imagem da estilista que vemos nos ecrãs de televisão… Pelo stress que apresentava e pela alegria e simplicidade que transmitia.

Começámos por falar nos estereótipos da moda, nos efeitos que a conjugação moda/ modelos e media provocam nas jovens de hoje. Falámos na proibição da venda de números pequenos, por parte de algumas cadeias de lojas espanholas, e no aumento da bulimia no nosso país.

A estilista Fátima Lopes foi pragmática e afirmou que em relação à moda as coisas mudaram muito nos últimos anos, surgiram várias modas, deixou de haver um modelo e passaram a existir vários modelos. Tudo foi posto em causa…as medidas perfeitas, as formas perfeitas e a própria beleza.

A moda serviu para mostrar que ninguém é perfeito e que a beleza não é a perfeição. Há até, nas passerelles das principais capitais europeias, a procura da vulgaridade, fala-se no culto do feio…”Nos nossos dias a moda é o ser-se saudável, cada um da sua forma, cada um com a sua beleza, mas de uma forma saudável.

Coleção Fátima Lopes
Coleção Fátima Lopes

Houve, em tempos, o culto da Kate Moss…todas as jovens queriam ser esqueléticas, mas, até esta modelo já não é magra, já não se enquadra na moda actual”. Há, de acordo com a perspectiva de Fátima Lopes, uma tentativa, por parte dos estilistas, de irem ao encontro dos consumidores, para que as pessoas se apercebam de que todos podem vestir as várias marcas.

A conversa foi prosseguindo… e o mundo da moda foi-se dissolvendo, passamos para o mundo de Fátima Lopes, um universo não menos pequeno do que o imaginário desta mulher.

A conversa foi entrando na carreira e na marca de Fátima Lopes, um percurso que segundo a própria afirma, não foi nada fácil, mas, subindo um degrau de cada vez…e colocando sempre os dois pés no chão antes de passar para o degrau seguinte a Fátima chegou lá.

Começou por um atelier com apenas duas pessoas e as coisas foram crescendo naturalmente. A internacionalização surgiu porque cada vez que a Fátima ia a Paris alguém queria saber onde ela comprava a roupa.

Duas marcas convidaram-na para desenhar para eles e, se alguém queria a sua roupa, não fazia sentido estar a trabalhar para os outros… decidiu trabalhar para si e apresentar a sua marca naquele país.

A carreira da estilista Fátima Lopes

Começou por fazer uma feira, o Pret-à-Porté, onde expôs a coleção para ver o que acontecia. Ficou colocada no pior espaço de todos, o segundo andar, o andar da indústria…vendeu tudo. Depois dessa feira já vieram mais nove e atualmente, está representada no principal espaço, junto de todos os grandes nomes da moda internacional, mas esta subida tem sido gradual…

Há três anos abriu uma loja na Rue de Grenelle, perto de todos os outros grandes criadores…há seis meses surgiu o primeiro desfile no calendário internacional da moda, cerca de mil pessoas assistiram a este acontecimento, esteve lá toda a imprensa internacional e quinze canais de televisão. Neste momento prepara-se para a conquista do mercado dos Estados Unidos.

A fama e o ser a primeira mulher da moda portuguesa, são expressões que não a assustam. As pessoas são sempre simpáticas, e a própria estilista Fátima Lopes considera-se uma pessoa muito sociável, gosta de falar e conviver com as pessoas, não se importa com o constante assédio de que é alvo, nem com os pedidos de autógrafos.

Sabe que muitas pessoas a consideram distante e arrogante, mas atira as culpas para a irreverência da imagem que ela própria construiu e afirma gostar de ver a admiração que as pessoas sentem quando a conhecem e constatam que afinal ela é uma pessoa simples.

Vida privada é uma expressão complicada. Existe, mas a falta de tempo é imperiosa… a vida acaba por ser o trabalho e pouco mais. Semanas com duas e três horas de sono, não há tempo para muitas coisas…não há tempo para se aperceber nem da fama, nem da falta que faz a vida privada, mas também não se preocupa, tudo vai surgindo e o tempo vai sendo distribuído.

Para a estilista Fátima Lopes há sempre muito mais para conseguir. Quando alcança um objectivo, já tem outro em mente… “A vida é feita de sonhos… e eu nunca disse: já consegui tudo na vida…”. Gosta que a deixem trabalhar e é feliz com aquilo que faz. Orgulha-se de ser portuguesa, mas admite que a sua moda é internacional.

Desfile Fátima Lopes
Desfile Fátima Lopes

Há traços que definem o seu estilo, neste caso e falando na roupa para mulher, podemos considerá-la muito feminina e original. Nisso é pragmática, ao afirmar que faz roupa para ela, quando desenha tem de ser roupa de que goste, jamais faria algo de que não gostasse. Depois as roupas são adaptadas para os tamanhos mais comerciais, mas têm sempre um lado muito design…é um estilo muito próprio.

Em relação à roupa para homem as particularidades são o oposto… o homem tem de ser muito masculino, mas nunca escondendo o corpo. Afirma estar na altura de os homens deixarem de vestir o tradicional casaco, com camisa aos quadrados e gravata. A roupa para homem criada por Fátima Lopes é facilmente identificada por se afastar de tudo o que já existe no mercado, e é por essa razão que a procura tem vindo a aumentar.

A androgeneidade da roupa é coisa que não lhe agrada. A mulher tem de ter curvas e o homem tem de ser muito homem, cada um com o seu corpo, todos com as suas diferenças, independentemente da sexualidade que homem ou mulher possam querer viver.

A estilista Fátima Lopes cria o seu próprio espaço

Tudo o que faz tem a sua assinatura, tudo aquilo em que investe é um projecto seu, como foi a criação deste mega-espaço onde tem a loja, o bar, a agência e a escola de manequins, o atelier e a sua própria casa. Um grande sonho que aos poucos foi tomando forma.

Um bar porque estamos no Bairro Alto, uma escola de manequins, porque é o mundo onde se movimenta, um atelier porque o que tinha tornou-se pequeno e uma loja, porque só tinha uma em Lisboa. Um mega-projeto completamente desenhado por si, onde se denota o espírito e a iniciativa desta designer…

O tempo foi avançando e a conversa escorregando…até que chegámos às novas tecnologias de design e de informação, como o novo programa que comprou e como a Mulher Portuguesa, um projecto que a estilista classificou de importante pelo potencial que poderá ter em prol da divulgação da moda portuguesa e dos novos talentos.

“Pode ser um veículo para a divulgação daquilo que se vai produzindo, não só ao nível da moda, mas de todas as outras artes como o cinema, o teatro e a música, para a moda principalmente, há muito poucos apoios em Portugal”.

O desfile em Paris foi outra grande meta, à custa de uma ou duas semanas com muito sono por dormir… mais um marco na carreira desta grande mulher.

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