De mãos dadas para a cidadania

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Maria das Mercês Relvas
Maria das Mercês Relvas

O projecto ‘De mãos dadas para a cidadania’ é a nova aposta da Fundação Humberto Delgado dirigida aos professores e jovens em idade escolar. Fomos conhecer o projecto através da coordenadora do serviço pedagógico, Dr.ª Maria Mercês Relvas.

Ensinar aos alunos sobre a cidadania é algo que a lei portuguesa já prevê para as escolas mas os professores e alunos parecem ainda não estar preparados para esta nova área curricular. ‘A cidadania é crescer cidadão, crescer autonomamente, pensar por si próprio.’ É nesta base que o projecto ‘De mãos dadas para a cidadania’ se desenvolve juntando professores e alunos no questionamento e na aprendizagem sobre o passado, mas também sobre muitas realidades presentes. Trata-se de um projecto lançado em Outubro do ano passado e que conta já com uma enorme aceitação por parte das escolas, coordenado pelas Dr.ª Maria Mercês Relva e Dr.ª Sandra Cristina Almeida, professoras de História.

O projecto destina-se ao público dos 2º e 3º ciclos e secundário, sendo a intenção preparar algo também para o primeiro ciclo, como expôs Maria Mercês Relva: ‘Uma das nossas grandes preocupações é que as acções que fazemos não sejam apenas para professores. Quando as escolas nos contactam informamos que esta se destina a professores que se interessam pelo assunto e que estão dispostos a ser monitores dos jovens em futuras acções. Neste momento temos vários jovens a colaborar connosco, que se preparam também eles para dar a formação.’

Os primeiros membros das acções de formação para animadores de grupos de jovens, são alunos de uma escola de Santo António dos Cavaleiros que, após investigarem acerca dos acontecimentos que tiveram lugar antes do 25 de Abril de 1974, tomaram conhecimento da figura de Humberto Delgado e propuseram o seu nome ao Ministério da Educação para designar a escola.

‘A história contemporânea de Portugal é muito pouco conhecida. Os miúdos preferem os heróis da televisão como o Zé Maria e o Eusébio e não conhecem nada mais sobre a história do seu país. Há coisas de que todos temos de ter conhecimento mas não acontece assim, e é nossa função despertar consciências para que certos acontecimentos não voltem a ter lugar, despertando os jovens para o que de errado aconteceu no passado. Estas acções estão previstas nos currículos escolares mas os professores optam apenas por dar a matéria e avaliar os alunos pela média, o que é errado.’ lamenta a professora.

‘Desde que apresentamos a ideia deste projecto na página da Fundação Humberto Delgado, não pararam de chover os pedidos das escolas para realizarmos acções sobre a cidadania. Isto tem sido tudo muito rápido e temos tentado dar sempre resposta às solicitações que têm chegado à Fundação. Criámos uma bolsa de colaboradores, e neste momento já contamos com cerca de vinte pessoas ligadas às universidades e Escolas Superiores de Educação, que se prontificaram a fazer artigos, que futuramente farão parte de um livro’, explica Maria Mercês Relva.

O livro contará com os artigos que uma comissão coordenadora, presidida pelo Prof. Dr. Agostinho Reis Monteiro, do departamento de Ciências da Educação da Faculdade de Ciências, irá escolher. No final, o livro contará ainda com algumas questões destinadas especificamente à discussão entre os professores.

‘O projecto ‘De mãos dadas para a cidadania’ nasceu de uma necessidade que os professores, que colaboram com a Fundação, sentem nas escolas quando se trata de falar da cidadania, que é uma valência que consta dos novos programas curriculares. Já antes este assunto poderia ser tratado por qualquer professor, em qualquer disciplina, mas é sempre difícil um professor desviar-se do tema das aulas. Pensámos por isso criar uma secção pedagógica na Fundação para levar esse assunto às salas de aula.’

A primeira vez que a ideia foi apresentada, num encontro internacional sobre direitos humanos, acolheu imediata atenção por parte dos restantes participantes, ‘por se tratar de uma organização não-governamental que iria desenvolver um projecto para as escolas, principalmente uma Fundação com o nome de alguém ligado à política e que estava virada para as escolas e para trabalhar com os jovens’ relembra Maria Mercês Relva.

‘Nas escolas, os professores estão com muito trabalho, têm de lidar com os problemas de indisciplina, burocracia e com os conteúdos e têm medo do que é novo. Muitas escolas ainda não informaram os professores sobre o diploma para as aulas de sexualidade que já saiu em Outubro do ano passado. E a Fundação tem também um especialista sobre sexualidade, que está pronto a falar nas aulas e nas escolas que o desejem, porque esse tema é também parte da cidadania.’

Com vista a auxiliar os professores, o site da Fundação irá apresentar uma mala pedagógica, com a primeira ficha pedagógica já preparada para o professor utilizar na aula, analisando o regulamento interno da escola em relação aos direitos e deveres dos alunos.

Nas conferências e nos cursos, a acção dos apresentadores passa por ‘lançar ideias sobre aquilo em que acreditamos e colocarmo-nos à disposição para que os professores e alunos presentes nos digam aquilo sobre que pensam, e sobre isso construir alguma coisa. Os jovens têm mais coisas na cabeça do que aquilo que julgamos. São extremamente críticos e cabe-nos a nós dizer que nem tudo é mau, lançando um pouco de esperança, num futuro que se apresenta não muito promissor, com a falta de cursos e empregos.

E isto para crianças que sempre tiveram tudo caído do céu e que de repente começam a ver o seu futuro com obstáculos que não podem contornar.’ Segunda Maria Mercês Relva é necessário dizer aos jovens ‘que o futuro está nas mãos deles e é preciso pô-los a discutir estes temas uns com os outros em vez de estar nos centros comerciais a fumar ou noutras coisas. Um dos pontos mais importantes é que, com estas acções tentamos levantar-lhes a auto-estima, para que se sintam capazes de fazer tudo o que desejam.’

E o projecto tem despertado interesse noutros pontos do mundo contando mesmo com um convite para uma participação numa revista brasileira de Ribeirão Preto, S. Paulo, para a secção de educação.

Afinal é do confronto de ideias, opiniões e troca de experiências que se faz a responsabilização face às tomadas de decisão e os comportamentos adoptados, embora todo o trabalho desenvolvido necessite também da adesão e interesse dos jovens, que até agora se mostraram dispostos a colaborar prontamente.

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