A esperança da cura nas Taipas, uma entrevista a Luís Patrício

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A esperança da cura nas Taipas
A esperança da cura nas Taipas

A Mulher Portuguesa fez um curta, embora profunda, viagem ao mundo de um dos grande males da nossa sociedade: a Droga. Entrevista a Luis Patrício.

No Centro das Taipas rumamos até às causas, tratamentos e consequências da toxicodependência. O Director do CAT, Dr. Luís Patrício, conversou connosco e conduziu-nos até aos labirintos da esperança.

Entrevista no centro das Taipas a Luis Patrício

Sob a vista esplendorosa de Lisboa, o Centro das Taipas localiza-se no número 20, num edifício que no seu interior mais se assemelha a um labirinto, onde a saída é tão confusa como a libertação para a dependência. De voz melodiosa e tom coerente, o Dr. Luis Patrício contou-nos que o Centro das Taipas existe desde 1987, e que foi a primeira unidade do Ministério da Saúde, correspondente à medida 11 do Projecto Vida.

Os CAT’s existem nas capitais de distrito e, a partir de 1990, com a criação do SPTT (Serviço de Protecção e Tratamento da Toxicodependência), foi desenvolvida a política de cobertura de todo o país.

Luís Patrício
Luís Patrício

Abordado sobre a metodologia do Centro das Taipas, o Dr. Luis Patrício conta que “ Possuimos consultas externas, à hora de almoço e depois das cinco, para que não perturbe o trabalho dos doentes. Realizamos apoio à família, formas de intervenção psicoterapêutica, individual e de grupo, intervenção farmacológica, que acompanha a intervenção a nível europeu.

Possuímos também o internamento para desabituação, embora isso não seja a cura propriamente em si. Significa sim, uma ajuda no processo, pois a cura tem que ser avaliada a vários níveis e não só no consumo”.

Os toxicodependentes são pessoas que necessitam de ajuda e de um acompanhamento terapêutico intenso. Por isso, o Director do Centro das Taipas é peremptório na sua análise: “O toxicodependente é uma pessoa que parece ter parado no tempo e no desenvolvimento da sua personalidade.

E, muitas vezes, com 20 e 30 anos, ou até mais, reagem perante a vida como se fossem adolescentes. Daí que eu tenha o hábito de perguntar: Quantos anos tens? Quantos anos usas?”.

Relativamente aos casos mais graves, e necessitados de internamento, o Dr. Luís Patrício salienta que “Quem pensar que se fizer o internamento, desintoxicando, fica curado é mentira. E, isso também se paga caro financeiramente.” A assistência terapêutica integrada é, por isso, primordial.

Durante a nossa entrevista e reportagem ao Centro das Taipas, a Mulher Portuguesa teve oportunidade de assistir a uma consulta com um toxicodependente que não conseguia cumprir as indicações médicas. Tratava-se de um caso de substituição opiácea que não estava a ser levado conforme instruções médicas, e o controlo das análises denunciou a situação.

Relativamente à substituição opiácea esta acaba por ser um mal menor para uns, e um bem maior para outros, segundo o nosso entrevistado. Mas, todo este processo de substituição da droga deve acabar passado um tempo, embora longo, e não prosseguir a vida inteira. “Durante esse tempo a pessoa não precisa de consumir, mas a intervenção terapêutica integrada é imprescindível.”-afirma o Dr. Luís Patrício.

Ultimamente tem vindo a registar-se uma grande vaga de pessoas na casa dos trinta que só agora começaram a consumir droga. Fruto de uma maior abundância da mesma ou dos estilos liberais da sociedade actual, o certo é que o consumo de cocaína tem vindo a aumentar, bem como o de substâncias como o ecstasy ou o haxixe. Todavia, o Dr. Luis Patrício salienta que “os dependentes de opiáceo são ainda quem mais nos procura, numa faixa etária dos 25 aos 35 anos.

Há ainda aqueles que fazem misturas de álcool e medicamentos com opiáceos, o que torna as coisas mais graves. Além disso, a percentagem de mulheres a procurar-nos é igualmente superior do que há uma década atrás.”

Com um serviço de apoio também a grávidas, o Centro das Taipas possui um Centro de Dia, ateliers de fotografia, cerâmica, pintura, informática, um centro de emprego, para ajudar os toxicodependentes reabilitados a encontrar trabalho, sala de fisioterapia e locais próprios para convívio.

O nosso guia e entrevistado, ao longo da visita ao Centro das Taipas, conta que “Um toxicodependente é alguém ferido na sua liberdade em relação a uma substância da qual é dependente, na sua vida, na autoestima e até no âmbito sexual.

Embora de início este último factor não se note, posteriormente a actividade sexual é quase nula. Afirma ainda que” Um toxicodependente não sabe gerir o dinheiro ou o seu tempo, nem aumentar a autoestima, e nem conhece sequer o respeito pelos outros.”

O Centro das Taipas é um serviço gratuito e confidencial, e só no programa de substituição opiácea é que essa confidencialidade é excluida. Para além disso, muitos dos doentes que recorrem a estes serviços são pessoas com depressões graves e psicoses escondidas por trás da própria toxicodependência.

A Mulher Portuguesa ficou ainda a saber que, um ano é o tempo mínimo para a recuperação de um dependente de heroína, e que na grande maioria dos casos, esse tempo tem que ser ultrapassado.

Da longa conversa com o Dr. Luis Patricio houve uma parte que convém salientar: “Curar um toxicodependente não é só parar o consumo de droga. Ninguém se pode dizer curado, apenas porque sai de uma unidade de internamento e já não consome.

Se uma pessoa sai do internamento e não consome, não trabalha, não mantém uma relação amorosa, e nem está activo socialmente, então essa pessoa não está de maneira nenhuma curada. Só com a junção da ausência de consumo e com o devido restabelecimento social é que se pode falar de cura.”

Enquanto percorríamos o CAT das Taipas dois toxicodependentes, que se encontravam no internamento, meteram conversa e em jeito de conselho disseram:” Que nunca ninguém se meta nisto, porque muito dificilmente se sai. O mal foi a heroína, e depois o álcool.

Agora, só a metadona é que acalma”. Na esperança de largarem a droga, acenaram-nos com um brilho nos olhos e soltaram um “Boa Sorte e Felicidades!”. A Mulher Portuguesa partiu, e no CAT das Taipas a espera da sorte e felicidade que tarda em reaparecer. Uma sorte e felicidade que, infelizmente, há muito já esqueceram…

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