Maria Emília Soares, a dona do jogo

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Maria Emília Soares
Maria Emília Soares

Maria Emília Soares foi a primeira empresária de futebol em Portugal. Benfiquista de alma e coração, confessa-se desde sempre uma apaixonada pelo futebol. E garante que o facto de ser mulher não pesa, num mundo dominado pelos homens.

Maria Emília Soares

Já lá vão 17 anos, Maria Emília Soares abraçou uma profissão que é uma autêntica raridade entre as mulheres. À Mulher Portuguesa, esta mãe de dois filhos, avó de uma neta, confessa que o futebol é “uma paixão muito antiga”. Com a saudade nos olhos (foto, primeiro plano), Maria Emília recorda os tempos de criança, em que “os tios eram profissionais da CUF”. Recorda que “o bichinho começou com eles”.

Daí, até começar a jogar, foi um passo. Na altura, vivia em Moçambique, onde jogava e treinava, ao mesmo tempo, uma equipa feminina de futebol de salão.

Por estranho que possa parecer, afirma que havia uma “mentalidade muito aberta” a estas coisas, “talvez por sermos vizinhos da Rodésia, da África do Sul… conseguíamos encher um pavilhão com 5 mil pessoas para ver futebol… não tinha nada a ver com as pernas das meninas!”.

Primeiro, foram então os jogos e os treinos. Em 1983, resolve tirar o curso de Treinadora de Futebol no ISEF, em Lisboa. “No início, eram 800 homens e eu, a única mulher. No final, restavam apenas 200 homens e eu”.

Curso terminado, Maria Emília vai viver para Alcobaça, onde o marido exerce funções de secretário técnico. “Foi aí que começámos a ver muitos jogadores que vinham ter connosco e que nos perguntavam se nós sabíamos de algum clube onde pudessem jogar.

Apercebemo-nos, então, que faltava um elo de ligação entre o jogador e o clube… os clubes não sabiam que determinados jogadores existiam e, por motivos diversos, os jogadores não se apresentavam aos clubes.

E eu resolvi começar a desempenhar essas funções. Na altura, em Portugal, ninguém o fazia, não havia os empresários de futebol que hoje conhecemos”.

Agora, como na altura, Maria Emília garante que o facto de ser mulher nunca a favoreceu, mas também não a prejudicou. Assegura que “todos os empresários, todos os clubes me recebem bem”. O problema não está em se ser mulher ou homem. O problema é outro: “o que move o mundo do futebol são interesses… o dinheiro é a mola que move o futebol”.

E neste mundo tão mediático, não hesita, quando lhe perguntamos se existe muita corrupção no futebol. “Exactamente. (…) os empresários mais mediáticos têm mais vantagens”. Por exemplo, a empresária garante que um dos problemas maiores do futebol português é o facto de haver muitos estrangeiros “de fraca qualidade”. E isso acontece porque “dão muito mais dinheiro (…) São as viagens, as estadias, os certificados, os pagamentos aos clubes de lá… Enfim, a lógica é: o que vem de fora, é bom”!

Maria Emília afirma, não sem uma pontinha de desapontamento na voz, que “o valor do jogador, hoje em dia, mede-se apenas pelo empresário que tem por detrás; e quando o empresário é o mesmo do treinador, é meio caminho andado. Não se procura saber o verdadeiro valor do jogador”. Pior, actualmente “o jogador é o que menos interessa!”.

E o futuro, Maria Emília, a Deus pertence? Sim, mas não acredita em melhoras. Para isso, era preciso que o futebol português “fechasse para obras”. Era preciso mudar tudo, ter só “gente nova: dirigentes, jogadores, empresários, árbitros, Federação… só assim! Com os actuais, não há melhoras!”.

Mas, afinal, qual é o papel do empresário? É importante um jogador ter um empresário, porquê? Maria Emília sorri, perante tanta curiosidade. Às voltas com um gelado que vai desaparecendo “à velocidade da luz”, parece procurar as palavras certas para explicar tudo desde o princípio.

É importante porque, a nível de jogadores, “a oferta é muito maior do que a procura”. Assim, o empresário funciona um pouco como o mediador entre o jogador e o clube, mas também como o apoio do jogador, ao longo da época. Já lá vamos… agora Maria Emília explica-nos como escolhe os jogadores. Conta-nos que características lhe permitem perceber que um jogador tem “potêncial”.

Primeiro e antes de mais, tem que saber “tratar a bolinha”. Ou seja: tem que ter técnica. Essa é uma característica “que nasce com eles”, não se ensina. Quanto ao resto, “a força, a velocidade”, há exercícios práticos para tudo isso.

Depois, é preciso saber como é a vida particular. Se fôr um jogador “que se deita todos os dias às tantas, que bebe, que fuma, nunca irá longe no futebol”. Maria Emília orgulha-se de representar vários jogadores e “nenhum deles fuma”. Em suma, resume, “tem que levar uma vida regrada”.

E o espírito de sacrifício, onde é que entra? Não é preciso, julgamos nós… Afinal, toda a gente pensa que ser jogador de futebol é “viajar muito, passear muito, ganhar muito bem…”. Desengane-se, pois então! Maria Emília garante que é precisamente ao contrário. Imagine-se, conta, divertida, “aqueles jogadores muito jovens, com 18, 19, 20 anos…

Maria Emilia Soares
Maria Emilia Soares

Gostam de ir para a discoteca, passar tempo em jantares e almoços com grandes patuscadas… e não podem”. Comer de tudo então, nem pensar: “…se abusam um bocadinho, já engordam, já vem o preparador físico repreendê-los!”

E há o São Pedro, que nem sempre é amigo do futebol: “(…) mesmo com chuva, com frio, com vento” têm que treinar todos os dias.

E as viagens? Podem tornar-se num verdadeiro pesadelo, considera Maria Emília, determinada. Por exemplo, “o Imortal (de Albufeira) está este ano na segunda divisão de honra; é o único clube abaixo de Coimbra (…) Domingo sim, domingo não, estão para cima de Coimbra! ” E isso pode ser muito cansativo.

Escolhido o jogador, o empresário tem que apresentá-lo ao clube. Aqui, ou o leva directamente lá, ou convida o treinador a vê-lo jogar, ou faz um vídeo e mostra-o. Se o clube gostar, o resto são números. Maria Emília esclarece que “o empresário cobra uma comissão, no meu caso, 10 por cento” do valor do contrato.

E nos casos em que surgem problemas, cabe-lhe ser o mediador. “Eu vejo as coisas assim, mas também há muitos empresários que se limitam a colocar o jogador e voltam no final da época, para receberem a comissão do ano seguinte”. Durante a época, “nem aparecem”!

E há também os momentos em que vale tudo, até mesmo pedir dinheiro emprestado ao empresário. Como? Mas, afinal, os jogadores são mal orientados? Maria Emília confessa que sim, sobretudo “os novos, que não têm família nem responsabilidades”. E isto acontece porque “são muito assediados” e pensam assim “…se eu este ano ganho isto, para o ano ganho mais isto, portanto, posso gastar sem problemas…”.

E querem logo “carros bons, porque dão nas vistas; e gostam de roupas de marca”. O problema é que “nem sempre o ano seguinte é melhor do que o anterior(…) nem sempre eles fazem por isso, durante a época”.

Maria Emilia Soares
Maria Emilia Soares

Actualmente, Maria Emília Soares trabalha apenas com clubes da segunda divisão e da divisão de honra. Mas não vão tão longe assim os tempos em que apresentou ao Benfica, dois “craques” internacionais: Gamarra, uruguaio, e o treinador inglês Graham Souness.

E, neste caso, grande foi o arrependimento, sobretudo, como benfiquista. Pois, que como empresária “já estou tão habituada a levar marteladas…”. Os resultados é que a aborreceram mesmo. O Benfica “não é clube para ter treinadores que pensam que sabem tudo, do tipo “quero, posso e mando”. Para Maria Emília, Souness “não era humilde, não era capaz de reconhecer os erros”.

Por entre papéis, telefones, contactos e mais contactos, hoje em Lisboa, amanhã no Porto ou em qualquer outro sítio, Maria Emília confessa que o tempo para a família, é muito pouco. Entre o futebol e o bar de que é proprietária em Oeiras, os dias nunca são iguais.

Com um sorriso de menina que ainda dá “uns toques na bola”, remata que um “dia típico” é “muito complicado! Eu nunca sei onde estou, graças a Deus”! Para ela, o importante mesmo é cultivar essa “paixão” com décadas de vida, que dá pelo nome de Futebol.

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