Crónica: Ver através do fumo… assim é a visão dos fumadores

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Cronistas da MulherPortuguesa
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Ver através do fumo. Claro que é típico, que até parece bem, está aceite pela sociedade e mesmo apresenta um certo status quo. Acender um cigarro, puxar uma fumaça ou simplesmente fumar, são expressões idênticas para um mesmo gesto, mas que de simples não tem nada.

Ver através do fumo

Não me importo nem um pouco de ver esses seres esfumantes que se passeiam semelhantes a fantasmas, com a única diferença que estes não fazem anunciar a sua presença com o cheiro nauseabundo da nicotina e alcatrão. Não me importo, desde que os veja a conveniente distância. Ou seja, não lhes sinta o cheiro.

Isto porque estar a levar com o fumo soprado sabe-se lá de que negras goelas, como se de um castigo infernal se trata-se é tudo menos agradável. É o cheiro que se entranha na roupa, no cabelo, no nariz, obrigado a respirar o mesmo ar poluído, e que ainda se torna mais revoltante porque não é feito por decisão própria.

Claro que os fumadores agora podem estar a pensar que se falo assim, qual é a razão para continuar a frequentar os locais onde há fumo. E a minha triste resposta, tal como de milhares de fumadores passivos (porque não me posso considerar não fumadora) é que não tenho outro remédio.

Mesmo com todas as leis, nomeadamente a portuguesa que no artigo 2º do decreto-lei n.º 393/88 declara que é proibido o uso do tabaco ‘nos locais de atendimento público, nas estações de metropolitano, elevadores e estabelecimentos de ensino’. Claro que o cumprimento desta lei está à vista de todos os que se deslocam a estes locais.

E depois, como todas as pessoas, também almoço, ou petisco qualquer coisa num estabelecimento que se chama pastelaria, café ou restaurante consoante a decisão dos donos, mas onde sou bombardeada com fumo por todos os lados. Nessas alturas recordo um anúncio que passou alguns anos a esta parte, em que uma senhora num restaurante pergunta a um outro comensal que fuma: ‘Espero que a minha comida não incomode o seu cigarro’.

E é ver os senhores puxando uma baforada do seu cigarro, cachimbo ou charuto, depois de um opíparo almoço, as senhoras soprando mais ou menos discretamente o fumo para os lados e os mais jovens e activos pura e simplesmente atirando fumaça para cima dos olhos de quem está ao lado.

É tão familiar como coçar certas partes do corpo, meter o dedo no nariz, cortar as unhas nos transportes públicos ou atirar um escarro a estalar para o chão de uma qualquer rua. É bem visto e fica muito bem.

Cronista da Mulher Portuguesa: Maria do Carmo Torres

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