Crónica: Um voto por um queijo, reza assim o orçamento do estado

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Cronistas da MulherPortuguesa
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O Orçamento de Estado para este ano foi aprovado! E, aparenta se tão credível que, mereceu os votos contra de todos os partidos que constituem a oposição. Contudo, lá no meio da bancada do Partido Popular, um senhor, de nome Daniel Campelo, levantou-se quando o Dr. Almeida Santos pediu que assim o fizesse quem se abstivesse ao orçamento.

Um voto por um queijo

Assim reza o final, por enquanto, de um orçamento cuja história gira em torno de um ‘hipermercado parlamentar’, onde o queijo é vendido a preço de ouro.

A democracia é negociável! Assenta em princípios humanitários de cariz social, onde se devem lutar pelos interesses do povo. Luta-se pelas melhores condições de um grupo vasto de pessoas, que devia ser Portugal, mas que no caso do Orçamento de Estado não foi.

Caso as vantagens e funcionamento coerente do orçamento se venha a verificar, Portugal fica mais rico, ou melhor, alguns ficam mais ricos que outros (isto também não é nenhuma novidade, mas pronto!).

O que acontece é que o distrito de Viana de Castelo é a zona que mais fica a ganhar no meio disto, pelo menos assim parece, porque as condições de um autarca do PP foram levadas avante.

A situação verificada neste acordo de viabilização do Orçamento de Estado, que englobou o Governo e o deputado do Partido Popular, Daniel Campelo, é o exemplo nítido do que se passa do nosso país. Tudo é negociável! Os salários, impostos a partir de um limite governamental, o preço dos produtos que se regateiam nas feiras, as prestações de serviços das prostitutas, ou o custo de uma casa em segunda mão, são situações nas quais podemos negociar e levar avante os nossos interesses.

Curiosamente, não se pode negociar o preço do queijo. Seja de cabra ou de ovelha, o preço do queijo tem sempre um preço fixo e paga-se exactamente o que está marcado, sem um escudo a mais ou a menos. Mas, no Orçamento de Estado para o ano 2001, uma marca de queijo esteve na origem da sua viabilização.

Aqui, o queijo foi negociável, graças à determinação(?) de um deputado do PP que ousou ir contra a consciência do seu partido, e ir a favor dos interesses da sua terra. Sinceramente, não sei porque é que ficou tudo tão boquiaberto no Parlamento com a atitude de Daniel Campelo! O senhor apenas foi buscar o que queria, e nada mais! Não é o que todos fazem?

Os ‘homens’ do parlamento ficaram muito chocados com a atitude do Governo e de Daniel Campelo, mas a meu ver era escusado tamanha hipócrisia. Então os senhores também não negoceiam? Atraiçoam colegas, amigos, companheiros de longa data, para irem buscar mais alguns tostões, e vêm criticar o que se passou no parlamento?

É inadmissível que acontecimentos destes se verifiquem, mas assim os cidadãos já podem alegar que, se os deputados e o governo o fazem, porque não o havemos nós de fazer também? Infelizmente, é esta a lei da vida! Um negócio que implica uma troca qualquer, onde os interesses das partes é garantido.

Lamentável este tipo de acordos governamentais! Lamentável que o governo ceda às exigências de um deputado por causa de um voto, que viabilizaria a aprovação do Orçamento de Estado! Lamentável que esse deputado, ainda por cima, seja de direita, de valores opostos aos do governo, e que os governadores do nosso país o tenha descaradamente ‘comprado’.

Lembremo-nos da greve de fome que Daniel Campelo protagonizou no início do ano, tentando atrair a atenção do governo, exactamente por causa da fábrica de queijo de Ponte de Lima. E, foi essa tentação irremediável e incontrolável do governo por ‘queijo’, que fez com que pudessem suspirar de alívio na votação do orçamento.

Presumo que, com tamanho falatório sobre queijo, o consumo também não seja menor, ainda para mais agora, que as condições do deputado do PP foram aceites. Senhores deputados, não abusem do consumo do queijo, que isso ainda piora mais a vossa falta de memória que, em tantas situações, se manifesta. Cumpram o vosso papel e devolvam à democracia os valores antigos, que não consegui encontrar nesta ‘feira de queijo parlamentar’.

A democracia não é um negócio de supermercado, onde se compram os ingredientes para uma apetitosa refeição, embora se desconheçam as suas consequências. Pelo menos, não o devia ser!

Este Orçamento de Estado veio demonstrar que a solidez do governo já não é assim tão forte, e que é preciso engolir um ‘queijo’ para vencer mais uma batalha. No mercado do parlamento, o Governo apregoa a alto e bom som as suas propostas e, depois, para adoçar a boca aos restantes deputados da oposição, nada melhor do que um ‘queijinho’, daqueles vindos directamente do distrito de Viana do Castelo.

As negociações do Governo podiam ter o lema ‘Um voto por um Queijo’, mas assim as promessas seriam ainda mais escassas do que já o são. E, de charlatões com falta de memória, estamos nós já fartos…

Cronista da Mulher Portuguesa: Ana Amante

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