Crónica: Um português à chuva

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Um português à chuva… decerto que veríamos muitas cabeças a rolar pela berma da auto-estrada…
A julgar pelo que pude apreciar durante os últimos dias, eu diria que são as condições climatéricas o factor mais preponderante nas alterações de personalidade dos portugueses. E isto é particularmente evidente quando a observação é feita em hora de ponta, de dentro de um carro.

Um português à chuva

Pessoas que em condições normais são pacatos pais e mães de família, civilizados e portadores de uma dose minimamente aceitável de educação, ao mínimo vestígio de chuva transformam-se em autênticos animais selvagens, dispostos a devorarem-se uns aos outros.

Só não o fazem literalmente por que para isso teriam de sair do carro e andar à chuva. Caso contrário, decerto que veríamos muitas cabeças a rolar pela berma das auto-estradas.

Como não podem chegar a esse ponto, entretêm-se a circular à velocidade máxima de 15km/h, de forma a provocar um engarrafamento eterno. Esta é a condição essencial para que possam então por em acção os seus instintos mais primitivos.

De um momento para o outro esquecem-se das pouquíssimas regras do código da estrada que ainda sabiam e deixam de usar o automóvel como meio de transporte. Transformam-no rapidamente num veículo de guerra declarada.

Acessórios essenciais para manter a fluidez do trânsito, tais como os piscas, deixam simplesmente de ser usados para dar a vez a um acessório de uso bastante condicionado em condições normais: a buzina. Esta foi feita para usar só em caso de perigo eminente, mas quando chove serve apenas para que o condutor faça notar a sua presença a cada 5 segundos (como se ninguém o visse entalado no meio de dezenas de carros parados), ou simplesmente para que o condutor da frente fique tanto ou mais enervado do que os outros.

É que para além de se tornarem umas feras, os condutores portugueses não admitem que alguém tenha um sistema nervoso mais resistente e encare o trânsito parado de forma mais positiva, aproveitando para ir ouvindo uma musiquinha ou usando o telemóvel para namorar. Portanto… toca de buzinar até que todos, sem excepção, estejam com os nervos em franja.

Se os vidros dos carros estivessem abertos, ouvir-se-ia um coro impressionante de obscenidades e insultos. Quanto a isso… bendita chuva, que mantém as janelas fechadas.

Claro que através dos vidros, apesar de não se ouvir, podemos ver gestos que são geralmente característicos do teatro experimental português, muito mais elaborados que o tradicional manguito, mas com um significado muito mais explícito.
Palavras para quê?

Claro que depois de um dia inteiro a trabalhar as pessoas estão cansadas, com fome e cheias de vontade de ir para casa. Por isso mesmo, será que é mesmo necessário transformar essa altura do dia num inferno sempre que caem umas gotas de água? Ora tenhamos mais um pouco de respeito, pelos outros e pela nossa própria sanidade mental.

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