Estudantes de Olhos Postos na Revisão Curricular

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Cronistas da MulherPortuguesa
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A Revisão Curricular está em vias de ser aplicada. Para contestá-la, os jovens de todo o país uniram-se e saíram à rua manifestando o seu desagrado. Veremos se, ‘Os Estudantes Unidos serão ou não vencidos’… Esta semana os estudantes saíram à rua na quinta-feira.

A Revisão Curricular

Fizeram gazeta às aulas, uniram-se num esforço nacional, e lembraram tempos antigos quando se soltava o popular ‘O Povo Unido jamais será vencido!’, agora ligeiramente modificado, ou então quando alguém anunciava a um megafone ‘A Luta Continua’.

Se por um lado foi agradável ver uma multidão de jovens, que não provocaram estragos de maior, apenas um outro incidente, a lutar pelos seus interesses, por outro lado foi também emocionante observar a multidão de pessoas que se juntaram no dia antes para desfilar nas ruas da capital em memória ao estudante do Instituto Superior Técnico assassinado na zona daquela instituição, mais propriamente perto do mercado de Arroios, após tentativa de assalto.

Os estudantes tiveram uma semana agitada. Alertaram para a já constatada insegurança que se vive nas ruas, e protagonizaram uma das maiores manifestações, se não a maior, que alguma vez jovens do secundário haviam realizado.

Ordeiros, desfilaram pelas ruas de Lisboa, Porto, Coimbra, Faro, Lagos, Portimão, Almada, Setúbal, Seixal, entre outros tantos locais, como forma de manifestar a sua indignação face aos novos métodos que vão reger o ensino básico e secundário, bem como ao actual sistema de acesso ao ensino superior.

Eram cerca de 7 000 estudantes, uns mais ingénuos, outros mais ‘calejados’, mas todos eles cheios de garra, pelo menos assim parecia, para lutar pelos seus ideais. Porém, nem todos sabiam a totalidade dos objectivos que os levava ali.

Aquilo que todos eles referiam era a necessidade de ser levada avante a lei que previa dar a devida importância à educação sexual nas escolas, o facto de não aceitarem aulas de 90 minutos e de quererem acabar com o actual método de acesso à universidade, bem como melhores condições humanas e materiais.

A maioria dos que ali estavam não faziam a mínima ideia da totalidade e conteúdo dos pontos que constituem esta Revisão Curricular, como já referi anteriormente.

Mas, e para além destas lacunas, é ainda de referir o ‘pagode à portuguesa’ que se viveu em frente à Assembleia da República, quando foi queimado um caixão negro de papel, ao som dos tambores e perante jovens malabaristas que ali exibiam os seus dotes.

Por momentos até parecia que se estava na Festa do Avante, mas com uma versão mais para o negro e com a inexistência das habituais tasquinhas de comes e bebes…Adiante!

Ponto número Um: aulas de 90 minutos? Os alunos já mal aguentam aulas de 50 minutos, quanto mais estar uma hora e meia fechados dentro de uma sala de aula, enquanto uns fazem rabiscos no caderno e outros já estão com dores na mão de tanto escreverem.

É de facto uma violência à primeira vista, mas não o é se pensarmos sob outra perspectiva: os alunos saem do secundário mal preparados, às vezes sem saberem escrever uma frase com princípio, meio e fim, e sem saberem fazer uma mísera conta de dividir.

E, se os estudantes do secundário acham muito uma hora e meia de aula, então o que vão fazer quando chegarem à universidade com aulas de três horas? Mais uma manifestação?

Ponto número Dois: o actual sistema de acesso ao ensino superior não é o mais competente. Os alunos com notas razoáveis não têm condições para conseguirem entrar num curso de medicina, por exemplo, no qual as médias são elevadas, enquanto que num curso de engenharia pode-se entrar com notas miseráveis.

O insucesso escolar pode também partir do desinteresse geral, da irreverência da idade, desmotivação e irresponsabilidade dos estudantes, mas convém não esquecer que essas atitudes são exactamente motivadas pela falta de dedicação e de viabilidade de um sistema já gasto e desactualizado. Ponto número Três: a educação sexual.

Os jovens iniciam a sua vida sexual cada vez mais cedo, envolvem-se sem qualquer cuidado ou precaução, conhecem vagamente os perigos, embora não os evitem na maioria das situações.

Fala-se da necessidade de informação, mas essa informação não chega a todos. Chega a ser maçuda, transmitida por métodos antiquados e arcaicos, sem uma linha orientadora que motive os jovens para procurarem informações, sempre que tiverem dúvidas.

A educação sexual é necessária, imprescindível para evitar gravidezes indesejadas e a transmissão de doenças fatais. Os estudantes do secundário são o futuro do nosso país e é através deles que Portugal tem que evoluir.

A Revisão Curricular contempla ainda estes factos hilariantes: 7 cursos gerais e 17 tecnológicos. Por acaso já repararam nas escolas deste país?

Possivelmente têm uma capacidade muito limitada para acolher os cursos atuais, quanto mais ir em busca destes voos ridículos (ridículos, porque não há outra palavra para os qualificar).

Quando não se possui asas para voar, ou melhor, locais adequados e com condições para ‘aterrar’ estes cursos todos, a alternativa é somente uma: melhorar o que já existe e não caminhar na direcção de utopias escolares!

Se for adiante a proposta para se alargar o ensino secundário por mais um ano, a desmotivação ainda vai ser maior por parte dos alunos.

Mas, por outro lado, os estudantes acabam por ter mais certezas daquilo que realmente querem, e assim não andam na universidade a passear os livros, a beber copos em festas académicas e a conservar ‘amizades coloridas’ no seu ‘curriculum boémio’.

Ao menos, pode ser que muitos dos veteranos já não impeçam a entrada de outros tantos caloiros que querem realmente tirar um curso, e no espaço de tempo previsto.

Para finalizar, queria apenas referir que os estudantes estão de parabéns pela união que revelaram nos últimos dias, quer seja para acções de solidariedade e de alerta, quer seja para acções de reivindicação.

Ainda que as medidas possam parecer aos estudantes sem qualquer fundamento, provavelmente a solução é esperar que algumas delas entrem em vigor, (mas apenas algumas, porque outras nem vale a pena tentar) para depois se retirarem ilações precisas.

Caixões, livros gigantes, o misticismo dos tambores, o alento das palavras, a esperança da mudança, a nobreza da acção dos estudantes do Técnico. Os jovens protagonizaram nesta semana todos estes sentimentos e, pelo que se viu, parece que ‘A Luta Continua’ mesmo!

Cronista da Mulher Portuguesa: Ana Amante

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