Phoolan Deri – A Rainha Bandido

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Phoolan Deri
Phoolan Deri

Uma mulher, uma vontade indómita e eis que a história da Índia actual é modificada. A prova de que a vontade de uma mulher pode ser mais forte do que todas as leis impostas. Phoolan Devi, cujo nome em hindu significa ‘deusa das flores’, nasceu em Gorha Ka Purza, na Índia, no seio de uma família onde já existiam mais cinco filhos sustentados pelo magro produto da pesca. A família pertencia à casta Harijan, ‘os intocáveis’, a mais baixa da hierarquia indiana e trabalhava para os Thakur, a casta mais elevada da região, possuidora do poder e da riqueza.

Phoolan Deri

Uma rapariga assim tão pobre não tem um grande valor na Índia e aos 11 anos de idade encontrou-se casada com um viúvo de meia-idade, em troca de uma vaca. Ele tratava-a horrivelmente, em conjunto com outra esposa com quem entretanto tinha casado. Aterrorizada, Phoolan chegou a fugir várias vezes para junto dos pais, mas estes devolviam-na sempre ao marido, até que este, farto dos seus gritos, a abandonou junto a um rio.

Sendo abandonada pelo o marido, foi banida pela família e o pai quis forçá-la a cometer suicídio saltando para o poço da aldeia. Como opção, foi obrigada a casar com um primo que já tinha esposa, mas também esta relação não durou muito tempo.

De novo sozinha, uma jovem mulher, banida pela família, era considerada pelas pessoas da aldeia como prostituta e maltratada por todos. Mesmo assim, sem qualquer tipo de educação, fez frente às autoridades em sua própria defesa e até em defesa do seu pai.

Apenas com 20 anos de idade, tomou para si os direitos de terra do seu pai numa dura batalha nos tribunais. Mas com todas as suas atitudes de rebeldia, havia um preço a pagar. Um ano mais tarde, devido a uma falsa acusação de roubo, Phoolan seria detida sem julgamento durante mais de um mês, em que seria repetidamente violada e espancada pelas forças policiais.

O seu crime? Tinha ofendido a casta Thakur com as suas ideias e a sua rebeldia.

No Verão de 1979, conseguiu fugir, ou segundo outras fontes, foi raptada por um bando de bandidos. Consta que o chefe dos bandidos, Babu Gujar, a terá violado e brutalizado, até que um outro bandido, membro da mesma casta de Phoolan, Vikram Mallah, a defendeu e matou o chefe.

Vikram, um homem bastante formoso, ensinou então a Phoolan tudo o que sabia e depressa ela estava preparada para vingar a sua vida de longos abusos. E estava disposta a seguir à risca os conselhos que lhe eram dados: ‘Mata trinta homens, não apenas um. Assim vais conseguir assegurar a tua fama.’ Juntamente com Vikram, liderou o bando durante mais de um ano, espalhando o medo nas imediações.

Um dia, Vikram foi ferido a tiro na cabeça e acabou por morrer. Tinha sido uma vingança pela morte de Babu Gajar. Phoolan foi capturada, e amarrada e amordaçada foi lançada para bordo de um barco que a levaria até Behmai. Ali foi aprisionada por um grupo de Thakurs, que a cada noite a violavam em grupo até ela ficar inconsciente.

Depois de três semanas desta tortura, soltaram-na apenas para que os ficasse a servir como escrava na vila onde eles se acolhiam, tendo que ir buscar água e fazer todos os serviços, completamente nua até que um amigo a resgatou dessa humilhação.

Era tempo de voltar aos seus dias de bandido. Voltou às zonas que já conhecia e juntou o seu próprio bando. No Inverno de 1982, vingou-se de toda a humilhação às mãos dos Thakus, voltando a Behmai para matar todos os homens que a tinham violado e abusado dela. Consta que terá matado pessoalmente 22 homens com a sua arma, uma .315 Mauser.

E como lhe tinham ensinado, a sua fama subiu em flecha. A própria história da vingança pela sua humilhação fez-lhe ganhar o respeito de todos os das castas mais baixas da Índia e até mesmo de alguns membros das classes mais altas e dos governadores. Para isso contribuía também o facto dos seus bandidos roubarem quase sempre apenas aos mais ricos e partilharem o espólio com os mais necessitados.

Os jornais serviam também esta fama, fazendo grandes manchetes com a sua história e até o comércio ganhou com Phoolan, introduzindo no mercado uma boneca à sua imagem, vestida com um uniforme de polícia e com dois cintos de munições ao peito, que foi um êxito de vendas.

No entanto, entre as autoridades policiais não gozava de tão boa reputação. A polícia indiana fez-lhe uma perseguição cerrada e um ano depois do massacre em Behmai, Phoolan estava a negociar a sua rendição face a mais de 600 polícias. Uma imensa multidão de mais de 80000 admiradores assistiram à cerimónia de rendição gritando em incitamento à já conhecida como Rainha-Bandido. Tinha reencontrado a dignidade.

A história de Phoolan continua até aos nossos dias. Desde 1982, passou onze anos na prisão, sem acusação formal ou julgamento. Foi depois libertada e em 1996 foi eleita deputada para o Parlamento Indiano. Casou. Aprendeu a ler e a escrever.

‘Rainha Bandido’ é o filme feito sobre a sua vida, nomeado para um Óscar para Melhor Filme Estrangeiro e que mereceu a censura dos conservadores indianos devido ao que consideraram cenas demasiado violentas de violação, nudez e depreciação política. Devi também não concordou com o filme, tendo mesmo apresentado uma petição ao tribunal para que o filme não passasse nos cinemas indianos, uma vez que se tratava de uma versão não autorizada da sua vida.

No entanto, o filme é também um retrato da vida das mulheres camponesas da Índia, da sua submissão e humilhação.

Em 1997, o Governo indiano decidiu que ela ainda não tinha sofrido tudo e decidiu infligir-lhe de novo a indignidade da prisão. Como último recurso, Phoolan ameaçou matar-se em protesto contra a reabertura do seu caso e contra as acusações de novo impostas, algo que lhe tinham prometido ser arquivado aquando da sua rendição à polícia em 1982.

Phoolan optou por se refugiar de novo nas ravinas que tão bem conheceu como chefe dos bandidos. Ali pelo menos tem a hipótese de uma vida digna. Tão digna como todas as mulheres do mundo merecem.

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