A Festa dos Rapazes

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Talvez a festa mais esperada do ano entre miúdos e graúdos, o Natal tem uma importância especial no nosso país, feita de religiosidade e paganismo que vai da missa do Galo à Festa dos Rapazes que assume diversas feições no Norte do País. Caretos

Talvez a festa mais esperada do ano entre miúdos e graúdos, o Natal tem uma importância especial no nosso país, feita de religiosidade e paganismo que vai da missa do Galo à Festa dos Rapazes que assume diversas feições no Norte do País.

É a mocidade quem mais folga com os festejos de Natal e para a tradição portuguesa esta é mesmo uma realidade. São os rapazes solteiros que roubam o madeiro que irá arder no adro da Igreja, são eles que cantam as Janeiras e são os jovens que participam na Festa dos Rapazes, mascarados de Caretos e que marcam o solstício de Inverno.

Esta festa realiza-se a 26 de Dezembro em aldeias dos concelhos de Bragança, Vinhais, Miranda do Douro e noutros concelhos do nordeste português, onde pode ser conhecida como ‘Festa (ou Mesa) de Santo Estevão’ ou Farandulo, e na aldeia de Constantim, Miranda do Corvo, a festa tem lugar no dia 27, sob o nome de Festa da Mocidade ou das Morcelas.

Na Festa dos Rapazes, mal a manhã desperta, os rapazes maiores de 16 anos e solteiros juntam-se a um gaiteiro contratado para os acompanhar e percorrem a povoação mascarados com coloridos fatos de lã e máscaras de madeira, ao mesmo tempo que fazem soar badalos, chocalhos e sinos que trazem junto ao corpo, provocando uma enorme algazarra. Seguem depois para a missa, altura de recolhimento, que se quebra depois da cerimónia em comédias e loas cantadas às gentes da aldeia, algumas mais fortes e atrevidas que outras. Estas loas são uma ‘revisão’ dos acontecimentos que tiveram lugar durante o ano na aldeia, com uma enorme dose de crítica social.

Como todas as festas, também esta tem a sua tradição gastronómica e hoje reina a vitela na mesa, cabendo ao juiz da festa a compra do animal e arranjar uma casa onde este seja cozinhado, sendo muitas vezes os próprios rapazes a assumir essa função, uma vez que não são admitidas mulheres, ou se participam fazem-no apenas na cozinha.

Nas aldeias em que a festa recebe o nome de Mesa de Santo Estevão, não se pode desiludir o santo e esta é preparada com o que de melhor houver, incluindo sardinhas, castanhas, figos nozes e tremoços.

No conselho de Vinhais dá-se ainda o Pão de Santo Estevão, colocado numa mesa montada no largo da Igreja, coberta de alva toalha e onde são dispostos pão, vinho e pão-de-ló (rosca), que em seguida são benzidos pelo padre e depois distribuídos pelo povo.

Caretos

A juntar a estes rituais de Inverno, temos ainda a Dança da Velha (ou dos Velhos) que tem lugar no dia 1 de Janeiro, em honra do Menino Jesus, na Vila Chã da Braciosa, em que um homem, vestido de velha mulher, com o rosto e as mãos enfarruscadas, sai à rua acompanhado por dois rapazes, um vestido também de mulher e outro de pauliteiro e que vão dançando à porta das casas, acompanhados por um grupo de tamborileiros (bombo, caixa e gaita-de-foles), seguidos pelo mordomos da festa com cestos onde recolhem as dádivas. À saída da missa, estes bens são leiloados e os que não foram arrematados servem para uma ceia colectiva.

A Festa do Farandulo tem lugar em Tó, Mogadouro, e decorre no dia 6 de Janeiro, sendo que na véspera se acende uma fogueira no largo principal da aldeia e durante a madrugada estalam os morteiros para anunciar a festa. Depois o mordomo e os rapazes vão ‘dar a alvorada’ por todo o povo, acompanhados dos tamborileiros. No final da corrida, param na casa de um dos membros do cortejo e ‘desenjuam’ com salpicões, linguiças assadas, vinho e aguardente. Segue-se a segunda volta à aldeia, desta feita com o peditório de bens e dinheiro para o Santo Menino. À frente do cortejo segue o Faranfulo, um rapaz vestido de mulher em jeito de Carnaval, saltando e gritando para as janelas a avisar da passagem do cortejo.

Uma outra festa que praticamente já caiu em desuso é a Festa da Senhora dos Moços, no mesmo dia, altura em que os rapazes percorriam a aldeia num peditório de bens, e cada um levava um ramo de árvore, limpo de folhas, onde eram colocadas as ofertas de chouriços, bacalhau, garrafas de vinho, fruta e doces, depois repartidos por todos (algo semelhante à festa de Halloween americana).

Em todos estes cortejos reinam as máscaras (caretos) e os fatos, alguns feitos de retalhos de tecido de várias cores, outros de fios de lã, mas em todos domina a cor e a alegria de um desfile que poderia ser tomado por festa carnavalesca. As máscaras eram feitas em madeira, mas com a falta de mão de obra que as soubesse traçar, começaram a ser feitas noutros materiais. A estas figuras, encarnando demónios, são permitidas todas as liberdades e assim celebram a passagem de mais um Inverno por terras portuguesas.

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