Veio há cerca de um ano, atordoado com o calvário
de ter de andar a procurar um local para continuar os estudos. Na escola, sempre
a mesma, concluiram que não sabiam o que fazer com ele. Era o rei das faltas,
do mau comportamento e para culminar enredara-se numa luta com um colega que
meteu polícia. Repetente, enviaram-no para a um local onde só viu jovens
deficientes mas na aplicação de testes verificaram que o Ivan até tinha capacidades.
Mandaram-no então para a equipa de reinserção social que por sua vez nos
contactou pedindo colaboração e que vissemos o jovem.
Num dia quente de verão, a suar (e tresandar) lá
entrou o Ivan (não era o terrível, mas quase) pois iniciou os testes desconfiado
e mal-humorado, mas foi amansando, denotando insegurança, ferrugem no pensamento,
potencial mal estimulado e pessimamente orientado. Por entre a torrente de
palavras que em ânsias jorrava em tom altíssimo, lá se apercebia riqueza de
vocabulário e reflexão sobre temas interessantes. Não era tolo o rapaz. Mas
estava convencido (ou convenceram-no) que era burro.
“Falo alto porque ninguém me ouve!!”,
justificava-se. Bem, no final da 1º semana de trabalho, já se podia conversar
com ele normalmente.
Voltar às aulas era impensável. Entravam todos,
professores, colegas e ele próprio em transe, pelo que se optou por deixar
acabar o ano lectivo – mais meia dúzia de semanas – e trabalhar com ele no
gabinete.
O Ivan melhorou rapidamente e mostrou-se
disponível, se bem que a medo, para avançar nas matérias. Vieram as férias.
No início do terceiro 6º ano, entrou cheio de
motivação, nas primeiras semanas parecia outro. Mas foi sol de pouca dura. A
turma muito infantil, o desfasamento etário e físico, a humilhação perante
“miúdos” de 11 anos que eram mais “espertos”, rápidos e eficazes, deitaram o
Ivan por terra e os esforços até então alcançados foram por água abaixo. No
Natal choviam as queixas. Em reuniões com a direcção, equipa de apoio, director
de turma, sensibilizamos os professores e o aluno assumiu mais responsabilidade,
empenhou-se, mas dentro da turma tudo voltava ao mesmo.
Se tanto se questiona, desnecessáriamente, a
aceleração na aprendizagem, com o argumento de que as diferenças etárias podem
ser traumatizantes para a criança mais nova – o que está provado em diversos
estudos não ser verdade – por que razão não se clama contra estas mesmas
diferenças etárias dos alunos que reprovam, e que sendo, pelo menos
teoricamente, mais reguilas, mais sabidos, mais experientes nas artes de
comportamentos disruptivos, se tornam perniciosos? É que o reprovado tende a reincidir e causa
tanto mal à turma como fermento estragado em gamela de massa pronta a ir ao
forno.
Por que motivo não se permite uma maior
flexibilização destes alunos na escolaridade?
Há alunos que não suportam estar fechados em salas
de aula. Ponto final.
Para quê torturá-los e torturar os colegas e
esgotar as energias dos professores e dos pais?
Por que
não podem propôr-se ou ser propostos para exames nacionais de qualquer ano?
O Ivan tem 16 anos. Muitos alunos terminam o 9º ano
com 14 ou 15 anos e alguns até o 12º nessa idade.
Por que não
permitir ao Ivan que se apresente a exames do 9º ano sem ter completado o 6º?
Se afinal as matérias se repetem e para completar o 9º terá de ter adquirido as
do 6º? Para quê tanta burocracia se um aluno que acelera na escolaridade até
pode passar directamente do 5º para o 7º , “engolindo” o 6º?
O Ivan está muito motivado para a possibilidade de
fazer o 9º ano em Julho e assim, recuperar o tempo perdido e poupar-se, em 3
anos, à “seca” de estar na turma com colegas muito mais novos!
A legislação
actual não permite.
Por que não dar esta oportunidade aos alunos que
não se enquadram numa sala de aula? Por que razão se há-de obrigar o aluno a
abandonar a escola, que é o que forçosamente irá acontecer ao Ivan, que até
pretende ser biólogo?
Que mal lhe poderá acontecer, se na pior das
hipóteses voltará ao ponto de partida? Mas, entretanto, há toda uma motivação
intrínseca que se recuperou e uma auto-estima que se guinda.
Deixem-me,
por favor, provar que era uma solução para o Ivan e para muitos casos semelhantes ao dele!!!
Dra. Manuela Freitas












