Odiado, idolatrado ou simplesmente encarado como um factor normal, o sangue da menstruação tem uma história de tabus e lendas tão antigas quanto a própria civilização humana.

Embora hoje em dia as jovens estejam mais preparadas para a chegada da
primeira menstruação (menarca) não raro é encontrar ainda aquelas que nada
sabem sobre o assunto. Entre esconder este factor a venerá-lo, a história da
civilização tem avançado em diferentes perspectivas acerca da menstruação.
Escavações descobriram vários artefactos que
simbolizavam a mulher, em antigos espaços europeus, e que sugerem que muitas
dessas culturas eram matriarcais e veneravam todos os processos do corpo
feminino, incluindo a menstruação. Em algumas civilizações, esta era encarada
como o momento em que a mulher atingia o seu máximo poder espiritual. Durante
este perÃodo, retirava-se para uma cabana especial, por alguns designada como
‘casa da Lua’ onde descansava dos seus afazeres habituais e aproveitavam o
tempo para se enriquecer espiritualmente. Noutras, o sangue menstrual era
oferecido em sacrifÃcio aos deuses. Outros artefactos
consistem em pequenos paus de madeira esculpidos que remetem para um calendário
menstrual, seguindo a sua harmonia com os ciclos da Lua. Alguns estudiosos
acreditam que estes paus terão dado inÃcio ao estudo da matemática e da
astronomia.
E ao mesmo tempo pode ser esta a base de muitos dos tabus
relacionados com o perÃodo mensal, uma vez que os homens atribuiriam a mudança
dos ciclos da Lua e das estações a estes ciclos, e temeram que as mulheres
pudessem controlar esses misteriosos eventos através do seu corpo. E esta
teoria tem ainda mais peso se acrescentarmos que, em comunidades onde as
mulheres estejam estritamente ligadas, o corpo feminino tem tendência para
coordenar os ciclos menstruais, levando-os a ocorrer na mesma altura.
Com o avançar da sociedade para um padrão patriarcal,
deu-se uma mudança de mentalidades, passando a ser este ciclo, antes a celebração
da fertilidade, a ser olhado como algo de imundo. No passado, existiram várias
teses que procuravam explicar porque é que as mulheres tinham estes ciclos
sangrantes. Alguns cientistas afirmavam que as mulheres tinham demasiado sangue
porque o seu organismo não era capaz de utilizar todo o fluÃdo que obtinham através
da digestão da comida, o que resultava em perdas mensais. Hipócrates acreditava
que esta ocorrência mensal purificava o sangue da mulher. Defendia que o sexo
feminino tinha uma disposição mais fria e menos activa que os homens; enquanto
estes suavam para remover as impurezas do seu corpo, o organismo das mulheres
tivera de encontrar outra forma de realizar este processo de limpeza, a
resposta fora a menstruação.

‘O seu contacto com o vinho torna este azedo, as colheitas em que toca
perdem-se, as sementes nos jardins secam, a fruta das árvores cai, a borda do
aço e do marfim é adulterada, os favos das abelhas murcham e o ferro fica
perdido pela oxidação. Um cheiro horrÃvel enche o ar; prová-lo torna os cães loucos e infecta as suas
dentadas com incurável veneno.’ PlÃnio, o velho, historiador romano.
Segundo a BÃblia, as mulheres menstruadas eram consideradas
impuras e sujas e deviam ser mantidas longe da restante famÃlia, dos lugares
santificados e de todas as coisas santas durante a duração do seu perÃodo. No século XVII os
homens podiam falar livremente sobre o assunto da menstruação, mas as mulheres
encaravam-no como um assunto muito particular e melindroso. E os tabus não
acabavam aqui, existindo mesmo o registo de um padre que nesta época se recusou
a dar a comunhão a uma mulher menstruada.
Na primeira metade do século XIX, acreditava-se que a menstruação
provinha de um excesso de nutrientes na mulher. O sangramento mensal na época
vitoriana era visto como uma limpeza fÃsica e mental, e começaram a dar-se os
primeiros passos para ligar a menstruação com os perÃodos de irratibilidade das
mulheres.
Tradições orais, escritos médico-cientÃficos ou puras suposições,
muitas são as coisas que se dizem acerca da menstruação: que fazer maionese ou
um bolo, este não vai crescer ou a primeira irá talhar ou que um cabelo de uma
mulher menstruada colocado junto de estrume transformar-se-ia numa serpente
venenosa.
Outras questões apontam para que o sangue menstrual
colocado na bebida ou comida de alguém captaria o amor dessa pessoa para sempre
e considera-se que o sangue de uma virgem tenha um dos mais fortes poderes. Se
este tocasse em algum dos pilares da casa, esta estaria para sempre livre de
qualquer mal.
No ‘Livro dos Segredos’ de Albert Magnus, este autor
adverte que os olhos de uma criança poderiam ficar danificados se uma mulher
menopausica a olha-se. E o medo de passar por debaixo de escadas parece resumir-se
ao receio que as pessoas tinham de circular por debaixo das pontes onde
passa-se uma mulher menstruada (de lembrar que não se usavam cuecas e que o
sangue por vezes corria livremente).
Estas crenças eram frequentemente contraditórias, como no
caso de que o sangue menstrual tanto facilitaria como inibiria a fecundação, o
que leva a um dos maiores tabus da menstruação: o tabu sexual. Dizia-se que uma
mulher que engravida-se durante o perÃodo poderia dar à luz um monstro, segundo
algumas culturas, ou simplesmente teria sempre raparigas.
No campo religioso, praticamente todas as religiões proÃbem
o contacto sexual ou familiar. A BÃblia afirma claramente que ‘uma das
propriedades de um homem bom é não se deitar com uma mulher menstruada’, caso
contrário é considerado impuro e prescreve mesmo a pena de morte para aqueles
que não respeitassem essa lei. No JudaÃsmo, a Tora especificamente proÃbe o
contacto sexual durante a menstruação e após este perÃodo a mulher terá de se
submeter ao Mikveh, o banho ritual de purificação.
Em redor do tema (e da mulher menstruada) muitos têm sido os mitos,
tabus e lendas que ainda continuam mais ou menos vivos na nossa imaginação, e
que em alguns pontos do mundo e mesmo do nosso paÃs, continuam a ser mantidos.