Um coração com duas bandeiras

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Natália Carrascalão nasceu em Timor econsidera-se luso-timorense. Assistiu à luta que o seu povo levou a cabo, ao sofrimento de familiares e amigos e ao apoio que Portugal prestou. A esperança no futuro de Timor, essa nunca ficou perdida. Natália Carrascalão

Foi no novo edifício da Assembleia da República que a fomos encontrar num pequeno gabinete mais do que cheio com a sua energia inesgotável. A conversa, porque disso se tratou, correu alegre e com simplicidade, características comuns a Natália Carrascalão.

Actualmente deputada pelo círculo do Porto pelo Partido Social Democrata Maria Natália Guterres Viegas Carrascalão da Conceição Antunes nasceu em Timor no dia 24 de Dezembro de 1952. Filha de mãe timorense e pai português, um homem dedicado à política e deportado pelo regime salazarista, não se sente minimamente dividida entre duas pátrias. ‘Felizmente consigo honrar as minhas raízes, quer a portuguesa, quer a timorense nunca misturando ou sobrepondo nenhuma. A minha educação foi luso-portuguesa e na minha casa falava-se o tetum e o português.’

A escolha de um companheiro recaiu também num português, algo que Natália Carrascalão considera como ‘um acidente. Estava em Timor a estudar e o meu futuro marido foi para lá e apaixonámo-nos, acabando por casar ali. Podia ter casado com um chinês mas calhou um português e não tenho razão de queixa.’

Mãe de um jovem com 23 anos, considera que a adaptação deste já foi mais complicada porque ‘para além de ser filho de pai português e mãe luso-timorense, foi um jovem que esteve em Portugal na década de setenta e agora foi para a Austrália para estudar em inglês.’

O desejo de combater a injustiça

O gosto e a opção pela política vêm da infância, embora tenha frequentado o curso de Direito na Universidade da Ásia Oriental. ‘Desde muito cedo que ouvia falar de política em casa, o meu pai era anarco-sindicalista e fora deportado pelo regime. Fomos sempre rotulados como filhos de um deportado e isso fez nascer em nós o desejo de combater essa faceta. Lembro-me de uma vez na escola com os meus 8 ou 9 anos, uma nova professora me perguntar de quem era filha e eu dizer muito baixinho que era filha de um deportado, mas ela percebeu que dissera deputado e não a tirei do erro. Acho que a situação da minha família me abriu os olhos e por outro lado o meu pai ensinou-nos a dizer sempre aquilo que sentíamos. E foi por vontade de contribuir para a sociedade que em todos os países onde vivi tentei sempre intervir.’

No entanto não deixa de considerar que a vida na política para as mulheres não é uma tarefa fácil. ‘Continuam a ficar para trás apesar de serem mais aguerridas que os homens, porque têm de se desdobrar numa série de reuniões e encontros e a ter de fazer o trabalho de casa, seguir os estudos dos filhos e o trabalho do marido. Para se estar na política tem de se estar de alma e coração e tomar opções.’ A opção pelo Partido Social Democrata tomou-a anos atrás porque achou que seria o que mais lhe daria voz para defender a causa timorense e o partido com que mais se identificava.

O regresso a Timor não está fora de questão como forma de contribuir para a recuperação daquela nação. ‘Não é por acaso que tenho o meu marido em Timor e o meu filho qualquer dia irá para lá.’ Não deixa, no entanto de lamentar o preço da viagem (perto de 400 contos), que a impede de lá ir mais vezes e estar junto do marido.

Interessada por tudo o que diga respeito aos direitos humanos, ocupa também o seu tempo na Comissão de Paridade, Igualdade de Oportunidade e Família, onde pode actuar mais de perto nas questões das mulheres, crianças e idosos. Como deputada pelo círculo do Porto, não deixa de visitar as áreas mais problemáticas da cidade, mostrando-se horrorizada com a pobreza que se vive no Bairro de S. João. ‘Portugal pode ajudar os povos que precisam, mas temos de nos unir e resolver este tipo de situações.’

Gastronomia timorense

Inevitável é falar de Timor, uma nação que considera irmã de Portugal : ‘há muitas coisas que unem os dois países, desde a língua, a forma de estar na vida. Somos uns orientais muito especiais.’

‘Vamos Jantar a Timor’ é a sua incursão pelo mundo das letras, um livro editado em Macau no ano de 1998, altura em que residia no país e cuja receita reverteu a favor da compra de livros para uma biblioteca destinada aos refugiados de Timor em Macau.

‘Não se conhecia absolutamente nada sobre a gastronomia timorense e as pessoas pensavam que apenas comíamos milho e hortaliça. Aproveitei as recolhas que fiz quando trabalhei com uma comunidade de idosas timorenses na Austrália, de forma a mostrar o que era a nossa gastronomia, além de usar o livro como um acto de resistência e de explicar as ligações de Portugal e Timor.’

Já não há lágrimas para chorar

No entanto foi preciso acontecer o massacre em Santa Cruz para que o mundo despertasse para a situação. ‘Passámos uma fase em Portugal em que falar de Timor era quase um pecado. Mas a luta continuava porque um dia a independência havia de chegar. Quantos de nós, luso-timorenses muitas vezes gostaríamos de dizer o que nos ia na alma mas nos sentíamos impedidos, porque tínhamos familiares ligados a Timor ou ao regime indonésio.’

A luta pela independência e a violência que surgiu após o referendo tocou-a profundamente, embora não goste de falar desses tempos que ‘é preciso deixar para trás de forma a construir o futuro. Infelizmente todos sabemos que por uma causa é por vezes necessário sacrificar vidas. Falar da morte é triste mas infelizmente é preciso que morra gente para que as pessoas abram a sua mente para os problemas. Se afirmam que lido com o assunto com muita frieza, a minha resposta é só uma “é necessário, já não há lágrimas para chorar”. Ninguém gosta de ver familiares e amigos morrer e já não estamos dispostos a ver mais pessoas morrerem. É preciso seguir em frente.’

Todos lutámos para construir a independência

Um dos nomes mais ouvido pelos portugueses durante a revolução foi o da família Carrascalão pelo papel que esta família teve no processo de independência, mas Natália Carrascalão é peremptória quando afirma que ‘todos os timorenses lutaram com igual força. A minha família talvez chamasse mais a atenção devido ao nome esquisito que provem de uma alcunha. Em Portugal ouve-se falar mais dos meus três irmãos, o João, o Mário e o Manuel, que tiveram um papel mais interventivo, mas todos os outros acompanharam os acontecimentos um pouco mais na sombra, tentando ajudar na sua luta. Nada me pesa na consciência do que não tivesse feito. ‘

A esperança no futuro é enorme: ‘Tenho a certeza que a situação de Timor vai ser resolvida porque acredito que os timorenses não estão dispostos a que ocorram mais problemas e acredito na redemocratização da Indonésia, ainda que a passos muito lentos. O papel dos timorenses em Portugal é que deve ter de mudar, porque agora ainda estão a ser encarados quase como uns coitadinhos mas têm de começar a fazer por dignificarem o nome de Timor pelos seus próprios meios. Trabalhar, mesmo que seja a lavar pratos não é vergonha nenhuma porque eu quando vim para Portugal fui trabalhar mais o meu marido para a Feira Popular e não morri por isso.’

Mães, irmãs, filhas e guerrilheiras

Em Timor a mulher tem um papel muito interventivo quer na guerrilha, quer na sociedade. ‘Encontrei mulheres excepcionais, falei com uma senhora chamada Domingas Alves (Bimesac), que não conhecia e fiquei absolutamente encantada. Tratava-se de uma antiga guerrilheira, que não sabia ler nem escrever mas quando falava fazia-se silêncio na sala. As mulheres timorenses têm um papel ainda mais difícil porque não deixam de ser donas de casa, trabalhar, estar na política e na guerrilha. E sofreram muito mais porque o fizeram no papel de mães, de filhas, esposas, irmãs e guerrilheiras. Quantas delas não ficaram sem os seus filhos porque os tiveram de entregar a outras para poderem continuar a lutar. Uma das histórias que não me canso de contar é a de uma senhora que me disse que tinha visto uma nossa amiga comum a morrer com um tiro na barriga que fez saltar o feto. Outra é o caso de uma colega de escola, esposa de um membro da FRETILIM que foi fuzilada numa ponte e caiu ao mar. Cada vez que olhava para o porto associava imediatamente a imagem dela e entristecia-me muito. E ainda todos os casos de mulheres que, depois de estarem em casa à noite, por vezes mesmo já deitadas, eram levadas para ir servir os generais indonésios.’

Perdeu muito mas ganhou muito

Para esta luso-timorense o seu país ‘perdeu muito mas ganhou muito, porque não há história nenhuma no mundo que seja semelhante. Foram os grandes ganhadores, conseguiram fazer a vontade aos indonésios durante décadas mas lá dentro a luta continuou sempre.’

No que respeita às ajudas de Portugal para com Timor, Natália Carrascalão invoca uma história: ‘Estava na caixa de um banco e uma senhora de idade atrás de mim aparentava alguma pressa. Como estava na minha vez, desviei-me um pouco enquanto esperava para resolver uns assuntos e quando ela se aproximou do balcão ouvi-a oferecer cinco contos para a conta de Timor. Pensei, será que terá outros cinco contos para comer e para as suas necessidades? As pessoas partilham o pouco que têm mas fazem-no com amor.’ E aponta ainda o envio de cassetes de vídeo com as manifestações de solidariedade que percorreram Portugal para que os timorenses possam ver o que foi feito em seu nome.

Uma história, uma vida, um relato. Este um pouco diferente, ou em muito igual a outros? Natália Carrascalão, essa, será sempre igual a si mesma e continuará a lutar pelo seu povo e pela igualdade.

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