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Médicos, Mulheres e VIH – Velhos conceitos, Novos Vírus   PDF  Versão para imprimir  E-mail 

NO ÂMBITE DA REDE Mediterrânica de Mulheres confrontadas com o VIH, projecto europeu que engloba os cinco países do sul da Europa pertencentes à Comunidade Europeia, foi construído e aplicado um inquérito a médicos de família e ginecologistas de Lisboa, Barcelona, Paris, Roma e Atenas.
Depois de ultrapassadas as dificuldades relacionadas com as diferentes e necessárias autorizações das entidades de saúde dos respectivos países, (tarefa que, em alguns casos, se revelou bastante difícil) foi possível obter a colaboração de 431 clínicos.
A amostra obtida demonstra claramente a desigualdade de participação dos diferentes países, sendo de realçar que Portugal representa 42 % do total dos participantes.

Este estudo destinava-se a obter informação sobre

.prevenção da infecção do VIH -mulhe- res quando, como e porquê

.prescrição do teste de despistagem do VIH quando, como e porquê

 

E avaliar

.a situação do preservativo feminino

.as responsabilidades dos diferentes intervenientes

 

O objectivo principal deste estudo visava a avaliação da noção e da relação que estes profissionais de saúde mantêm face ao VIH e, mais especificamente, de que forma é que esta realidade é por eles abordada quando se dirigem ao univer- so das mulheres que recorrem às consultas ambulatárias.

 

A amostra caracteriza-se por ser constituída majoritariamente por médicos de família (81,4%). Em todos os países, com excepção da Grécia, a maioria dos participantes é do sex.o feminino, represen- tando 53,4% da amostra total.. Verifica-se também que se trata de um conjunto de médicos com ampla prática clínica, pois apenas 13,2% trabalha há menos de 10 anos.

 

A valorização da idade das mulheres reflecte claramente a posição de que apenas às mais jovens, com menos de 24 anos e provavelmente solteiras, será importante falar sobre a prevenção do VIH, já que para a faixa etária com mais de 50 anos apenas 13,2% dos clínicos é claramente a favor da introdução deste tema.

O tema do VIH revela-se profundamente cercado de preconceitos, integrando e reproduzindo os padrões discriminatórios da sociedade em geral, não se constituindo os profissionais de saúde como um universo à parte.

 

A avaliação dos grupos a quem consideram indispensável a requisição do teste denota uma profunda associação à noção errónea de "grupos de risco", o que provavelmente se reflecte na tendência para adiar a abordagem da prevenção nas mulheres, apresentando o tema apenas nas consultas de seguimento regular.

 

As especificidades do género não são particularmente valorizadas pelos clínicos na abordagem da prevenção da infecção pelo VIH, considerando que ambos estão igualmente expostos ao risco de contaminação.

.A prevenção do VIH privilegia as mulheres jovens <24

.60% dos profissionais é indiferente ou contra a prevenção dirigida às mulheres de >50 anos

.54% é favorável à abordagem da infecção pelo VIH na 1 a consulta, sendo que este valor aumenta para 83% , no seguimento regular

.Cerca de 50% dos profissionais não tem em consideração as especificidades

de género »

.A prevenção é uma questão prioritária para 67% dos profissionais.

 

A actuação dos clínicos perante a gravidez denuncia fraco propósito preventivo, dado que privilegiam a gravidez de facto, como o momento adequado para a realização de um teste de despistagem do VIH e só remotamente ponderam a sua prescrição perante uma interrupção voluntária de gravidez.

 

A avaliação dos universos aos quais os médicos consideram "indispensável". a requisição de um teste de despistagem do VIH denota a profunda associação ao conceito de grupos de risco, tais como troca habitual de parceiros e utilização de drogas por via endovenosa (UDEV). A exis- tência de um diagnóstico prévio de uma infecção sexualmente transmissível (15T) não é inequivocamente valorizada pelos clínicos como um sinal de alerta, pois apenas 77,7% destes são completamente a favor da prescrição do teste de despistagem do VIH nesta situação.

 

83, 1% dos médicos de família e ginecologistas interrogados conhece o preservativo feminino. No entanto, apenas uma minoria (25,8%) considera de forma categórica que este método de prevenção é uma opção a ter conta. O conjunto dos clínicos que é indiferente, contra ou que não se pronuncia sobre esta opção de prevenção (37,4%) representa mais de um terço da amostra estudada.

 

Conclusões

 

o inquérito realizado aos médicos de familia e ginecologistas, das cinco cidades integrantes da Rede Mediterrânica de Mulheres confrontadas com o VIH, permitiu reunir 431 questionários. A amostra é constituída por um grupo de profissionais com ampla prática clínica verificando-se uma representação maio- ritária de mulheres.

 

A prevenção do VIH é dirigida às mulheres jovens, com menos de 24 anos, no seguimento médico regular e é prioritária apenas para 67% dos clínicos interrogados.

 

A noção arcaica e errónea de " grupos de risco" permanece e reflecte-se na prática clínica dos médicos de famma e ginecologistas, que não valorizam particularmente as especificidades d.e género na aborda- gem da prevenção da infecção pelo VIH.

No que diz respeito à gravidez, a des- pistagem do VIH é dirigida prioritaria- mente às mulheres grávidas, denotando fraco propósito preventivo. O preservativo feminino não é claramente considerado como mais uma opção preventiva.

 

Agradecimentos

 

A todos os profissionais que aceitaram responder ao questionário

Regiões de Saúde de Lisboa e Setúbal

Centro de Estudos Antropológicos Sociais -ISCTE

Generalitat da Catalunha

K.E.E.L. Grécia

Serviços Sanitários de Roma

Sida-Info-Service França

Comissão Nacional de Luta contra a SIDA

Comissão Europeia

 

Fonte: Boletim Abraço – Edição Março/Abril 2004

 

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