Edição Nº 3255
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O que vê a mulher portuguesa quando olha para o espelho? E o que vêem os outros quando olham para ela? Em que características pegaríamos se tivéssemos de elaborar um protótipo?

Patricia Esteves NunesO que vê a Mulher Portuguesa quando olha para o espelho? E o que vêem os outros quando olham para ela? Em que características pegaríamos se tivéssemos de elaborar um protótipo?

Estas são questões um tanto ou quanto absurdas quando as encaramos fora de contexto. Mas por razões óbvias o caso aqui é diferente. A questão interessa-nos, quanto mais não seja porque somos o seu objecto central.

Não queremos um perfil da consumidora, nem da mãe, nem da esposa, nem da dona-de-casa. Queremos realmente perceber quem é a Mulher Portuguesa enquanto mulher.

Se perguntarmos a um estrangeiro, provavelmente descobrimos que, para além de pertencermos a um rancho folclórico, temos bigode - a nossa projecção internacional não vai muito além disto. Se perguntarmos a um homem português concluímos que somos todas perfeitas, desde que não sejamos a mulher dele. Se for esse o caso, o melhor que conseguimos será talvez uma boa classificação no que toca aos dotes de cozinheira.

O pior é que se perguntarmos umas às outras a resposta também não se aproxima da verdade. Ficamos reduzidas a duas hipóteses: Descobrimos que somos umas super-tias de cabelo pintado, com um nome de 15 palavras reduzido a Tatá, Lili ou coisa parecida. Temos um guarda roupa capaz de reproduzir as ruas da Baixa em época natalícia, um carro de muitos cavalos que conduzimos como umas burras, e uma vida social agitadérrima, que nos impede de trabalhar ou simplesmente de educar os filhos.

A segunda hipótese não é mais lisonjeira: somos umas donas-de-casa exímias, e sabemos de cor as flutuações dos preços do arroz e das batatas. Vestimos saias pelos joelhos com blusas rendadas e usamos um saco de plástico como acessório da imitação Louis Vuitton que trazemos ao ombro. A vida social passa por bailaricos com música pimba, mas pode ser substituída de bom grado pela programação da SIC. A nossa preocupação permanente é que haja sempre quantidades industriais de comida para por à frente do marido e dos filhos, seja a que horas for.

Perguntamos, então, se não haverá uma imagem alternativa, ou mesmo um meio termo com que seja mais fácil identificarmo-nos. Há, é óbvio que há. Há a imagem de uma mulher moderna, uma mãe emancipada capaz de viver tanto para si como para os outros. Alguém que acompanha o tempo em todas as vertentes, investe na carreira tanto como na família e sabe cuidar-se e sentir-se mulher. O mal é que esta imagem só nos aparece no espelho, nunca nos olhos dos outros.

Mas neste caso só é cego quem não quer ver, e se preferem continuar a imaginar uma dançarina de bigode, azar! Não sabem o que perdem.

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