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Falta apenas uma semana para as eleições legislativas.
Falta apenas uma semana para as eleições legislativas. Se bem me lembro, há
4 anos atrás, por esta altura, Portugal encontrava-se imerso num pandemónio
de cartazes, comícios, debates, carros de campanha a berrar e panfletos a esvoaçar.
A luta era renhida, o fim da era do cavaquismo havia deixado o povo português
sedento de mudança e os candidatos não tinham mãos a medir, transmitiam ânimo
e determinação misturados com o cansaço de uma campanha fervorosa e de uma autêntica
perseguição da comunicação social.
Mas desta vez não. A tragédia em Timor abafou por completo os outros interesses
de Portugal. Xanana Gusmão e D. Ximenes Belo visitaram o nosso país em plena
campanha eleitoral e os portugueses mostraram-se mais empenhados em apoiar a
causa timorense do que qualquer candidato ao governo.
Os panos brancos, as velas acesas e as manifestações a favor de uma intervenção
da ONU juntaram uma maioria mais do que absoluta. Nenhum partido conseguirá
semelhante mobilização de eleitores por um candidato ou um plano eleitoral.
A luta por uma causa concreta ou apenas uma gigantesca manifestação de mea
culpa pela situação em Timor foram o suficiente para juntar os portugueses de
todas as cores políticas numa unanimidade surpreendente.
Timor continua a abrir todos os noticiários e a ilustrar a primeira página
de todos os jornais. Entretanto a campanha decorre em background, discretamente,
apenas a uma semana das eleições. As pessoas agitam panos brancos em vez de
bandeiras partidárias. Os automóveis ostentam pequenos cartazes alusivos a Timor
em vez de autocolantes de campanha.
Um discurso de Xanana Gusmão tem maior destaque do que o de um candidato.
São palavras de Paulo Portas, mas sem dúvida que representam o sentimento que
tem movido todos os portugueses nos últimos tempos. Um fenómeno inesperado,
sem dúvida, mas uma realidade admirável: "Enquanto se contam mortos, não
se contam votos." |