Recebeu o Prémio Literário da Cidade de Almada, em 2000, e afirma que a escrita está sempre nos seus olhos, cabeça e coração. Fomos ao encontro de Margarida Rios, uma das novas escritoras de ficção portuguesa.
Margarida Rios é uma das novas escritoras de ficção
portuguesa. Já com um livro lançado pelas Publicações Europa América,
intitulado “O Eléctrico do Exílio”, a Mulher Portuguesa quis saber um pouco
mais sobre o mundo que gira em torno desta nova escritora, a residir
actualmente na Suécia. A entrevista foi feita via Internet, mas as suas
palavras são transparentes o suficiente para percebermos a sua história de
vida, da escrita, e um pouco da seu íntimo literário, espelhado em cada
resposta que, gentilmente, nos concedeu.
A escrita surgiu na vida de Margarida Rios muito
cedo, antes ainda de saber escrever. Recorrendo ao traço e à cor, e com apenas
4 anos, a nossa entrevistada desenhava cenários com roupas nas cordas,
começando mais tarde a desenhar os rostos, sorrisos, dentes, os olhos, cabelos,
os laços. Recordou-nos que “as casas fascinaram-me sempre muito porque eram
autênticos cofres de segredos inatingíveis, através da cal, areia e de
alvenaria. As pessoas nas ruas, nas paragens dos autocarros, a travessia das
avenidas, sobretudo de noite, o terror do escuro, os pobres que na década de 50
exibiam o cheiro da miséria e o estigma de párias com o azedo das sopas em
tigelas de alumínio. Tudo isto, e mais o que não cabe numa simples entrevista,
me marcou desde a primeira infância”. Aos 10 anos escreveu uma biografia, criou
diversas bandas desenhadas, sempre tendo como fonte de inspiração temas
sociais, e aos 11 anos brotaram de si as primeiras palavras de essência
poética. O público conheceu a sua veia poética somente em 1991, com o livro
“Aroma”.
Nunca gostou da escola quando era criança. Perdia-se
na música, pintura, dança, e no mundo que a rodeava. Na altura do ingresso no
ensino superior, Margarida Rios queria ter seguido Belas Artes, mas por motivos
familiares viria a seguir Letras, licenciando-se em Filologia Germânica. Porém, nunca abandonou o mundo das artes:
pintava, chegou a expor na Faculdade de Letras, e colaborava com grupos de
teatro universitário. Ainda antes de concluir o curso já Margarida Rios
trabalhava, e durante muitos anos esta ainda recente escritora de ficção foi
professora de Português e Francês do Ensino Técnico e Secundário. A nossa
entrevistada tem uma visão muito clara relativamente ao Ensino: “Assumi sempre
o Ensino como uma potencialidade criativa para o aluno, mas cedo verifiquei que
os condicionamentos pedagógicos e burocráticos portugueses, extremamente
esclerosados, não criariam nunca a possibilidade de realizar um Ensino
verdadeiro e adequado às necessidades etárias dos jovens”. Nessa altura,
começou a dedicar-se mais à escrita, e a actividades ligadas à decoração de
interiores e comércio de arte.
"O Eléctrico do Exílio" é o seu primeiro
romance, e que lhe valeu o prémio literário da Cidade de Almada do ano 2000,
prémio este que é atribuído de 2 em 2 anos.. Quanto à temática do livro,
escrito em cerca de 9 meses, Margarida Rios realça que “O Eléctrico do Exílio é
uma saga que se inicia no final dos anos 50 e termina na contemporaneidade.
Aborda temas de impacto como: a criança maltratada, a condição da mulher, a
exclusão social o elitismo e suas repercussões, a condição de cristão- novo na
sociedade portuguesa e, mais precisamente, lisboeta. O livro aponta os perigos
da demagogia e dos extremos, abrindo as portas para o sonho de felicidade que
pelo menos, enquanto projecto, vale sempre a pena”. Após ter recebido o prémio
literário, Margarida Rios não hesitou e enviou a obra para a Europa- América.
Pouco tempo depois o livro seria publicado. Margarida Rios falou-nos das críticas
ao seu romance que, até à data, foram muito positivas: “A crítica manifestou-se
desde o primeiro momento positiva referindo-se ao estilo e ao conteúdo, havendo
mesmo quem afirmasse tratar-se de um romance de cariz histórico. Um muito
conhecido cronista social, também escritor e grande poeta, afirmou que «a
escritora é possuidora de uma rara sensibilidade»”.
Ainda em relação ao Prémio de Almada, Margarida Rios
recordou que “foi um marco decisivo na minha vida, obrigando-me a sair da
concha e a assumir-me como escritora que sempre fui. O crítico Fernando Miguel
Bernardes (membro da Associação Internacional de Críticos Literários) com os
restantes membros do júri, tiveram a coragem de dignificar uma obra insólita e
incómoda, que enaltece a luta dos exilados e oprimidos. Foi muito gratificante,
sobretudo se esta obra puder ser útil e companheira das pessoas que silenciam
sistematicamente os seus anseios, angústias e sonhos, e puder constituir um
marco histórico dos tempos da ditadura e alertar para os perigos dos
retrocessos políticos dos pretensos democratas”. Acrescentou ainda que ”o que
mais me sensibilizou foi o entusiasmo das pessoas que viveram na mesma época e
que puderam identificar a acção e cenários, partilhando intimamente comigo o
livro como se revivessem tudo outra vez. É claro que constituiu motivo de
grande satisfação para mim verificar que tinha conseguido publicar finalmente,
depois de longos anos de luta isenta e solitária, por mérito do meu trabalho e
não por compadrios”.
Entrar no mundo da literatura em Portugal é, segundo
Margarida Rios, extremamente difícil. Afirma mesmo que “tudo passa basicamente
por uma vontade de aço, persistência, trabalho árduo de aperfeiçoamento, até
chegar ao ponto de ser uma obra competitiva. Claro que temos que contar com a
mão de Deus. Aos jovens diria que não tenham pressa, o que é muito difícil, e
que laborem duramente o que escrevem, e que não hesitem de tempos a tempos em
rasgar tudo e recomeçar, porque foi o mesmo que eu fiz. Destruí alguns romances
já a meio e cerca de duzentos poemas, por considerá-los imaturos do ponto de
vista formal e de conteúdo, o que só iria prejudicar o meu perfil literário.
Não me arrependo até hoje de o ter feito, porque o que é universal vem sempre
ao de cima”. O seu primeiro livro, “O Eléctrico do Exílio”, tinha um objectivo
muito próprio que Margarida Rios nos revelou: “Desmontar o passado, o fascismo,
a intolerância, e abordar o tema do cripto-judaísmo, que em Portugal é
sistematicamente abortado e tido como não existente. Quis desmontar os tabus
das invulneráveis personagens da sociedade portuguesa, com o intuito de poder
desbloquear situações anónimas escondidas debaixo de impávidos rostos
sofredores.”
Escrever não é apenas algo que sai na hora, seco,
bruto, por lapidar, e sem qualquer ordem de ideias. Para a nossa entrevistada,
escrever está sob a sua pele: “Tudo me inspira, e eu dou por isso! Sinto tudo.
Vou acumulando e recuso-me a escrever, às vezes, durante meses. Sofro, mas
aguento. Depois, decido-me porque considero que é a altura certa de maturação e
porque já tenho o tema, a trama e o título na cabeça, e então escrevo de uma
ponta à outra com pouquíssimas correcções. Trabalho depois na montagem como se
fosse um script, anotando a par e
passo”. Aprecia escrever em cafés! Declarou-nos que “gosto muito de escrever em
Cafés, a ouvir o marulhar das vozes e o tilintar das chávenas, e o barulho da
rua coado através do bafo. Aqui na Suécia, onde vivo, escrevo quase sempre em
casa, no meio do campo, rodeada de árvores, alces, cavalos e pessoas simples e
agradáveis. Não quero dizer que não possa escrever em Cafés, de vez em quando,
na pequena cidade mais próxima de onde vivo, ou em Estocolmo. Nada me distrai,
nem o barulho, porque quando escrevo estou para além...” Porém, e com alma de
escritora, Margarida Rios cria sempre, mesmo que seja apenas na sua mente,
inúmeras cenas, diálogos, cenários ou descrições, onde quer que esteja.
Como principais referências no mundo da escrita,
referiu-nos dois grandes nomes: Fernando Pessoa e António Gedeão. Quanto ao
primeiro, relembrou que “Fernando Pessoa esteve sempre presente e os seus
heterónimos, desde a infância, em casa da minha avó. De facto, Fernando Pessoa
trabalhou como correspondente internacional de um dos irmãos da minha avó
materna, tendo-se criado entre os dois um vínculo de profunda estima e
compreensão. Por isso, na minha família começou-se a ler Fernando Pessoa quando ele ainda não estava em moda e
ninguém o lia porque ninguém o conhecia, a não ser um círculo muito restrito de
intelectuais e publicitários avançados”. De António Gedeão, Margarida Rios
contou-nos: “António Gedeão era o professor Rómulo de
Carvalho, e director da biblioteca do Liceu Normal de Pedro Nunes onde andei.
Sem que ele o soubesse, ajudou-me a disciplinar a escrita e a apreciar o ritmo
poético e as potencialidades críticas, mesmo no lirismo”. Camilo Pessanha,
Cesário Verde, Natália Correia, Eugénio de Andrade, Camilo Castelo Branco, Eça
de Queiroz, Balzac, Victor Hugo, Florbela Espanca, Pablo Neruda, entre tantos
outros de igual destaque, foram mais alguns nomes que Margarida Rios não quis
deixar de referir. David Mourão-Ferreira e António Lobo Antunes, foram personalidades pelas quais se apaixonou.
Confidenciou-nos que gostaria de continuar a
escrever cada vez melhor e que “os meus livros sejam traduzidos para espanhol,
inglês, francês e outras línguas”. Alega que não sabe que idade tem e que
“parece que tenho todas as idades”, talvez porque para ela a escrita seja um
oceano com sucessivas marés, como ela mesma nos disse. Os seus melhores
críticos são, às vezes, pessoas comuns. Na realidade, garante que “são pessoas
muito simples, discretas, que conhecem o que eu escrevo e a quem faço companhia
com as palavras. São essas pessoas que me encorajam a deitar cá para fora o que
eu tinha guardado numa pasta de cartão com atilhos de fita na minha cabeça”.
Confessa que actualmente só folheia catálogos escritos em sueco e o Kuriren, o
jornal da terra. “Lisboa em Camisa”, de Gervásio Lobato, foi o livro que leu
mais vezes, e que chegou mesmo a aprender de cor, mas agora tem preferido
descansar o cérebro.
Quanto a projectos futuros, Margarida Rios levanta
um pouco a ponta do véu e confidencia que “vou entregar o novo romance ao meu
editor muito brevemente. A seguir ao segundo romance, além de querer publicar
toda a minha obra poética, que já é bastante extensa, quero terminar uma peça
dramática e pô-la em cena. É uma peça para ser representada basicamente por
adolescentes, com um certo cariz de sátira e teatro do absurdo”. Confrontámo-la
com o seu maior sonho, enquanto mulher e escritora, e a resposta foi clara:
“Limito-me a viver e a ver vamos, se Deus quiser”. Nós limitamo-nos, também, a
aguardar pelo seu próximo romance. Certamente, mais um livro de registo!
|